"Minha vida é andar por esse país..."

"Suplico que Vossa Mercê receba este pobre serviço de alguém que o faria muito rico, se seu poder e seu desejo estivessem em conformidade".

Estou falando de sair de casa para viajar sem saber ao certo pra onde se vai. Sem carro. Sem relógio. Sem saber o horário de nenhum transporte. Sem controle sobre o tempo da viagem.

Cheguei indecisa à primeira rodoviária e fui checar nos balcões. Vi que em apenas quinze minutos sairia um ônibus para a Montanha. Comecei aí o processo de decisão e embarquei. Na segunda rodoviária, percebi que tinha caído num vácuo. Se quisesse mesmo ir pra lá, teria que esperar uma hora e meia. Aproveitei pra almoçar num quilo razoável e baratíssimo, tomar um belo café e ler tudo que pude do livro que levei.

Quando o ônibus finalmente chegou, vi que era confortável, o que me assustou, porque eu teria que me manter acordada o suficiente pra prestar atenção nas marcas da estrada e o estofado da poltrona clamava por sono e as pálpebras insistiam em buscar conforto uma na outra.

Chegou a hora de descer e de cair no segundo vácuo. Pelo menos tem uma casinha com telhas na beira da estrada pra me proteger do sol. Sem a menor idéia de quando virá o próximo ônibus, fico inventando brincadeiras pra me entreter. Cantar aos berros é sempre uma boa pedida. Ser zoada por caminhoneiros, nem tanto. Pior que estou a uns cem metros de um morro que está sendo escavado para extração de areia e isso necessariamente envolve uma retroescavadeira e meia dúzia de caminhões chegando e partindo em intervalos regulares. Por sorte nem todos os amáveis condutores estão interessados em me zoar. Ainda bem, porque não me sinto muito confortável sendo zoada, embora saiba que eles são gente boa e afinal de contas estão trabalhando sob um sol desses e em “dia feriado”, como falavam antigamente. Tem um que só falta pular da janela pra me dar tchauzinho com um tremendo braço de marinheiro popeye, caprichando também nas caretas no espelho. Céus. Tem gente que se diverte com coisas muito mais estranhas do que cantar aos berros.

Aparece uma garota. Uma moça magra, branquinha e simpática da roça. Todo mundo sabe que nessas estradas de roça, aparecer alguém no ponto significa que logo virá um ônibus. É como nuvem e chuva, fumaça e fogo. Pergunto e ela confirma. Mais uns cinco minutinhos. Amém.

Quando embarco para mais quarenta minutos de viagem no onibuzinho bem velhusco da Prefeitura, vou pensando assim, Que bom, depois dessa última baldeação só vão faltar mais três quilômetros de caminhada!

Quase sete horas pra chegar à Montanha.

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