"... pra ver se um dia descanso feliz"

Resolvi que estaria na segunda rodoviária às duas da tarde.

Era uma proposta descabida, pois significava descer a pé o ladeirão lá pelas nove horas da manhã.

Pois bem, é claro que não funcionou; aquele povo dispõe da prosa mais sedutora deste lado da galáxia.

Desci os três quilômetros do ladeirão embaixo de chuva, com meu bravo casaco preto de liqüidação protegendo as partes mais sensíveis do meu corpo, que são o MP3 e a carteira de dinheiro.

Cheguei à vila pouco depois do meio-dia; estava no meio do vácuo outra vez; o ônibus só chegaria dali a cinqüenta minutos. Um bom momento para introduzir uma pequena mudança nas regras vigentes até então: em vez de sentar e esperar no boteco, como havia feito antes, fui prosseguindo na estradinha e estendendo o braço para todo carro com cara de roça que passasse. Bem, vocês não acham que eu gastaria meu braço acenando para um Pajero cinza-metálico, blindado, com vidros indevassáveis e gente neurótica de cidade ao volante, né?

Bastou um aceno e surgiu um Voyagezinho gasto, porém valente.

EU: O senhor tá indo pra onde?

SENHOR DE CABELO ENCARACOLADO: Estou indo ao Ceasa, ali está bom?

EU: Perfeito. Preciso pegar um ônibus que passa lá. Tenho que ir pra segunda rodoviária.

SENHOR DE CABELO ENCARACOLADO: É, tem um ônibus que pára na divisa e dali você precisaria pegar outro. Eu tenho um filho que trabalha na linha de ônibus da Prefeitura. Ele é motorista e eu poderia perguntar os horários pra ele. Só que agora ele está de férias.

EU: O senhor mora na vila mesmo?

SENHOR DE CABELO ENCARACOLADO: Moro na vila; sou dono de duas mercearias. Uma fica em frente à escola; a outra lá na subida da Montanha.

EU pensei: Ah! Então o senhor é o dono da mercearia em frente à escola? Fiquei um tempo lá esperando um ônibus, bebendo água e ouvindo a sua mulher falar que o senhor é um TEIMOSO. Ela disse que o senhor compra mais pão do que o necessário e que por isso vocês têm prejuízo. E disse também que eu não deveria casar, porque pra ela foi um péssimo negócio passar o resto da vida lavando as cuecas de um marido TEIMOSO. Eu não formei nenhuma opinião, é claro, as pessoas sempre estão reclamando, casadas ou solteiras ou viúvas, e o senhor parece ser um cara muito legal e apesar de TEIMOSO me deu essa beleza de carona. Mas achei engraçadíssimo. E no fim ela me mostrou uma laranja vermelha por dentro que nem sangue e eu até coloquei a foto no meu blog (a história toda tá lá, copia o link: http://olhosparados.blogspot.com/2007/06/sobre-como-fiquei-conhecendo-uma.html).

EU falei: Em frente à escola? Eu já estive lá uma outra vez, esperando o ônibus. Falei com a sua esposa, a senhora que fica lá, não é?

SENHOR DE CABELO ENCARACOLADO: Isso mesmo. É a minha esposa, a Bia, que toma conta, junto com a minha nora, a Elisabete. O meu nome é Frederico, muito gosto. E olha, se a senhora quiser ir rápido até a segunda rodoviária é só ficar naquela pista do lado de lá e pedir uma carona. Não demora muito e alguém lhe leva.

EU: Olha, muito obrigada, viu? Adiantou bastante!

Mal botei o pé na estrada, surgiu o tal ônibus que me levaria até a divisa. Que beleza! A meta de duas da tarde já não me parece inatingível.

O ponto final do ônibus ficava em frente a um botequinho escurinho, mas muito animado, com mulheres de meia-idade bebendo suas cervejas com caras alegres e dois senhores idosos com olhares simpáticos sentados num banco de madeira velha do lado de fora. Engraçado, lá dentro quase não há homens (costuma ser ao contrário!), só senhoras ruidosas. Olhei os caras lá fora e lembrei de um amigo acupunturista que diz: "Quando a mulher fica muito yang, é melhor que o homem se retire".

De todo jeito, é o tipo do lugar onde eu adoraria matar o tempo, se não tivesse metido na cabeça a obsessão com o horário.

Perguntei sobre o ônibus que fazia o trajeto até a segunda rodoviária: ele só apareceria dali a uma hora. As senhoras informaram que também estavam esperando por ele. Um senhor negro muito bem vestido informou que havia uma van. Perguntei a que horas a van chegaria e recebi belas evasivas. Em certo momento, esqueceram de que eu estava ali e começaram a conversar entre elas e a conversa me soava confusa, com uma mulher dizendo que a van ainda demoraria e a outra argumentando que, já que era assim, deveriam beber outra rodada e sair mais tarde. Ninguém ali parecia querer ir a lugar nenhum; a atmosfera do boteco estava gostosa demais pra isso. Reassumindo meu papel de neurótica apressada, agradeci e parti. Um dos senhores idosos, com ar aflito, veio ao meu encalço.

SENHOR VELHINHO: Ei, menina, você está sozinha aqui?
EU: Estou, sim senhor.
SENHOR VELHINHO: Com Deus, né? Sozinha nunca, sempre com Deus.
EU: Tem razão, é isso mesmo, sozinha é jeito de falar.
SENHOR VELHINHO: E pra onde você vai, filha? O ponto final do ônibus é aqui. Tem que esperar aqui mesmo.
EU: Bom, se não tem van e o ônibus vai demorar então acho melhor ir andando e pedindo carona. Queria chegar logo, sabe?
SENHOR VELHINHO: Sei. Você tem dinheiro, filha?
EU: Tenho sim, senhor, não se preocupe, eu tenho dinheiro pro ônibus.
SENHOR VELHINHO: Então está bem. Porque se não tivesse a gente conseguia um pra você, né? Então vai com Deus, filha.

Dei uns dez passos e a van apareceu.

EU, ao motorista: Ainda bem que você chegou! Eu já tinha decidido ir a pé!
MOTORISTA, com um sorriso irônico: Ótima decisão. São quarenta quilômetros apenas.
EU: Meu Deus! E você acha que eu chego à rodoviária às duas da tarde?
MOTORISTA: Chega sim, a não ser que tenha algum acidente na estrada.

Não tinha.
Cheguei às duas em ponto e para felicidade geral da minha bexiga o ônibus tinha banheiro.

Quatro horas para descer a Montanha.

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