comida sem marketing parte 1

Outro dia vivemos a experiência de almoçar num lugar intocado pelo marketing. Virgem! Descontaminado. Um restaurante que ocupa uma casa de dois andares e é barato como as pensões de antigamente, mal-ajambrado como uma vendinha da roça e serve uma comida saborosa como na casa da sua avó.

Depois de encher nossos pratos com vários quitutes cheirosos, chegamos à balança, onde a moça me chamou de "meu amor". Prato pesado nas mãos, avancei mais uma casa no jogo e pedi a outra moça que aparentemente arrumava os talheres:

Pode levar um suco de laranja pra mim numa mesa lá em cima?

Não sei, é a resposta. Pura, desinibida, sem enganações!

Não sabe? Como assim, eu pergunto, cada vez mais fascinada.

Eu atendo aqui embaixo. Eu não atendo lá em cima. Vou ver se consigo subir e preparar o seu suco, mas só se o movimento aqui embaixo estiver fraco. Você vai lá e espera um pouco e eu te falo, tá bom?

Surpreendente, hipnotizante. Posso jurar que em qualquer outro lugar eu ouviria alguma coisa do tipo "Senhora, por favor aguarde na mesa, eu vou estar pedindo a uma pessoa para atendê-la".

Quando me acomodo na mesa e desembrulho os talheres, ouvi um grito.

Joana! A moça que tá aí em cima pediu um suco! Fica aqui no meu lugar, eu vou ter que subir!

E outra resposta no mesmo tom: Então vai, Maria.

Maravilhoso! Segundos depois a Maria aparece, ofegante por ter subido as escadas.

Por trás do balcão, vai passando as laranjas no espremedor. O suor da testa ela enxuga de vez em quando com um paninho branco, pendurado no ombro. Fico imaginando se usa o paninho também pra enxugar copos. O suco chega, é devidamente anotado e a Maria some apressada. Provavelmente o serviço já se amontoou lá embaixo.

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