Quero uma festa de 80 anos. Por favor organizem. É tudo por minha conta.
Os filhos trocaram e-mails. Festa, é? Sim, ela quer uma festa com todo mundo e tem que ser na cidadezinha onde a gente nasceu. Meu Deus, mas é pra Semana Santa, tá muito em cima, as pessoas já se planejaram pra esse feriado. Bobagem, é boca livre, todo mundo vai. Fala com Garcia, que há 30 anos é o cozinheiro do único hotel decente da cidadezinha, e com a dona Zizi, banqueteira aposentada e companheira das rodas de baralho. Ela quer todo mundo mesmo, dona Zizi já tá trabalhando na lista. E o Garcia? Falou que faz uma feijoada pra trezentas pessoas. Tá bom assim? Ela quer banda tocando ao vivo. Um dos netos é sanfoneiro, pede pra ele conseguir um forró de primeira. E a lista? Dona Zizi quer os endereços de todo mundo pra mandar os convites. Pelo correio, como antigamente.
Licinha pessoalmente escreveu nos convites que enviou para a família:
“Eu estou me despedindo e por isso no meu aniversário de 80 anos quero uma grande festa. Conto com você lá”.
Chegou o sábado de Aleluia.
O Garcia, suando no meio de meia dúzia de caldeirões, estava tranquilo. A lista passava um pouco de 300 mas em geral os faltosos superam os penetras e ele nunca tinha se equivocado nas contas da sua feijoada.
O filho mais velho filmou a Licinha dançando de cadeira de rodas a festa inteira. Ninguém entendia onde ela conseguia fôlego pra dançar tanto e ninguém estava em condições de entender. Na melhor sequência da gravação, a banda do neto sanfoneiro improvisa uma música de quadrilha e a multidão organiza um túnel de braços pra Licinha passar em sua cadeirinha.
Dona Zizi disse ao final da festa: “Dançou o tempo todo! Só parava de vez em quando porque o Garcia mandava um garçom servir água pra ela”.
E ao terceiro dia, acordando com 80 anos de idade e depois de ter patrocinado a melhor festa que a cidadezinha já viu, ela ressucitou.
Sem ter morrido.
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