Catarina, a merda e eu

"Morena, foi assim, não sei se já te falei que tenho um problema recorrente com aqueles vasos sanitários em que a água da caixa acaba e ponto final, se tudo aquilo que deveria ter ido embora não foi realmente embora então a gente tem que esperar pacientemente até a caixa encher de novo pra reiniciar o processo. Pois isso se repete na minha vida, eu que vou muito pra roça e por alguma razão (mais baratos? mais disponíveis?) esses vasos sanitários são predominantes na roça. Então sou obrigada a passar temporadas longas em banheiros de gente que mal conheço, embora o que eu tenha pra fazer o faça objetivamente e sem muita demora, mas a água da caixa se recusa a embarcar todos os passageiros para sua viagem ao escuro anaeróbico; é como uma espécie de overbooking que requer a redistribuição dos passageiros que sobraram em outro voo, entende? E eu fico lá até o final porque acredito que devemos empenhar todos os esforços possíveis para remediar as merdas que fazemos, e nesse caso estou sendo mais literal do que gostaria. O que me surpreendeu foi encontrar esse tipo de vaso num casarão elegante de um bairro de gente que ganha muito ou que rouba muito, aqui a gente nunca sabe, o que eu sei é que é um casarão todo de pedra e quase fiquei com vergonha de estacionar meu carro no meio de uns filhotes superalimentados do desing automotivo, umas máquinas poderosas que bebem vorazmente nossas últimas esperanças de nos livrar do aquecimento global. E minha surpresa foi ter apertado o botão da válvula e ter percebido que nem todos queriam partir, ou melhor, a água só fez uma marolinha, como se fosse aulinha de natação para cocôs ou sei lá o que. Era intervalo da minha própria aula, claro, eu tinha aula, você certamente não acha que era por vontade própria que eu estava naquela casa de bacanas?! Esperei que a caixa enchesse, apertei de novo. Nada.
Puta que o pariu, mais água, um balde dágua! A irritação faz de mim uma pessoa determinada. Procurei o caseiro mas só encontrei sua loura de estimação, postada no portão em frente a sua casa, gritando, Oiiiiiii... Catarinaaaaaaaaaaaaaaaa... oiiiiiiii... a gritaria só me atiçou ainda mais a raiva, mas perto do portão da loura achei um balde velho com uma água suja, restos de folhas mortas e um pincel... deve estar cheio de mosquito da dengue nessa casa e tudo isso só me deixava mais revoltada com aqueles falsos bacanas que não colocam privadas decentes, contratam caseiros que saem pra dar rolé e deixam o papagaio cumprindo o expediente e pra piorar não ligam a mínima pra epidemias que matam gente que não tem nada a ver com toda aquela merda ("again" sendo bem literal). Oiiiiiii... Catarinaaaaaaa... ao som dessa cantiga inspiradora continuei revirando o pátio em busca de uma torneira e a coisa mais parecida que achei foi um bebedouro. Foi ali que enchi o balde pra completar seu conteúdo pútrido com aquele "algo mais" que faria o embarque acontecer. Óbvio que levou horas encher a droga do balde e lá em cima a aula rolando e é uma aula dessas absurdamente superfaturadas então calculo que tenha sepultado vários dólares a cada minuto que passava tentando resolver a merda do problema, ou o problema da merda. Mas eu achava que esse era um dever de honra, afinal não ia querer exibir o conteúdo das minhas tripas para um ou outro aluno que tivesse que usar aquele maldito vaso. Mas tenho a sorte de ser velha e ter assistido no cinema a "Um Convidado Bem Trapalhão" e enquanto acionava o botão e ao mesmo tempo virava o balde sobre o vaso lembrei da impagável cena do Peter Sellers no banheiro da mansão. E depois de dar uma última limpadinha na sujeira do banheiro e de devolver o balde à empolgada Catarina, ainda consegui entrar na aula com um leve sorriso de deboche".

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