você enfrenta dois segundos de um suspense terrível antes de se jogar no fundo de uma onda que vinha quebrando na sua cara, pra finalmente descobrir que a barriga da onda até que é um lugarzinho sossegado;
a toda hora você precisa interromper a leitura de La Longue Route para ajeitar a posição sob a barraca de praia pra se manter na sombra;

você faz esforço pra lembrar que precisa tirar os sapatos antes de entrar em casa quando voltar exausto da caminhada na montanha – ih, olha lá, você esqueceu e vai ter que limpar a terra toda que entrou;
você acaba de deixar pingar suco de manga sobre a toalha da mesa na hora em que você afundar os dentes na carne deliciosa que sobrou no caroço;

dormimos demais e estamos atrasados pra chegar ao boteco, mas os amigos estão lá animadíssimos, ignoraram nossa ausência e ainda dão risadas quando percebem que chegamos com pressa;
você coloca o mp3 pra tocar no modo aleatório mas curiosamente algumas músicas se repetem, como se o aparelhinho adivinhasse que você tem uma preferência oculta por aquelas canções (esse problema tive no réveillon do ano passado, quando um mp3 pseudoaleatório engasgou com Zumbi, do Jorge Ben, e eu adorei!);
tem uma casquinha de feijão no dente que fica bem no meio do sorriso do João Gabriel;
você acaba de ler a última frase de La Longue Route; você se arrepia com o ventinho frio e descobre que está diante de um estonteante por-do-sol laranja e cor-de-rosa; uma onda que você não viu sobe pelas suas pernas e a água do mar avança sobre as páginas do livro; o livro ficou todo enrugado, mofará e nunca mais será o mesmo, mas diante dos seus olhos o mar reencontrou seu grande heroi...

"I am a citizen of the most beautiful nation on earth. A nation whose laws are harsh yet simple, a nation that never cheats, which is immense and without borders, where life is lived in the present. In this limitless nation, this nation of wind, light, and peace, there is no other ruler besides the sea."
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