"A tua sede é calma, calma de alma verde
A tua fome é fonte de onde nasce o homem
E espalhas... (o que?) estilhaços de amor (eh eh ô ô)"
E logo vem o arco-íris e tudo fica bem, uma vontade mística de sorrir. De noite é passear com o cachorro, ele anda bem no passo da gente, nunca adiante, e muito sério porque está lá também pra nos proteger. E os diques de pedra são lindos e a gente pode ir muito longe caminhando por eles, saltando pedras, e por trás dos muros sempre brancos das casas da minha rua ouço uma lavadeira cantando assim:
"Feiticeira, feiticeira,
Feiticeira é essa mulher que por ela gamei"
Estou esperando no cais, as pernas cresceram e agora dou conta de andar mais rápido, o All Star rende melhor na caminhança do que as percatas, mas também tem que parar a toda hora pra atacar. A espera é interminável, dá tempo de olhar o mundo muitas vezes e perguntar às ondinhas: fui ser vou feliz? E a escuna ao lado também dispara suas perguntas:
"Quantos elementos amam aquela mulher?
Quantos homens eram inverno outros verão?"
Eu tenho que caminhar e caminho sob uma névoa cada vez mais turva, mas a mão dele na minha mão vai apartando os espinhos e eu descanso grata; de noite é subir no teto e olhar o eclipse que se estende sobre as horas em tons de laranja e cinza. O menino me chama pra dançar e dançamos no meio da gente mais velha que debocha de nós; não sei o que se diz depois de se dançar com um menino então eu vou embora da festa sem dizer nada; se vierem os ciganos me acharão sobre uma pedra em meio às ondas, chorando, chorando. Lá fora a lua voltou a ser branca e eu canto assim:
"Foge, lua, lua, lua.
Que já sinto seus cavalos.
Deixa-me, filho, não pises
O meu alvor engomado.
Deixa-me, filho, não pises
O meu alvor engomado".
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