Sexualidade e cosquinha, uma abordagem rodoviária

Segue breve estudo de gênero, realizado a bordo de um ônibus durante engarrafamento de quatro horas, em meio às "curvas da estrada de Santos".

GAROTO DE UNS 11 ANOS: Pai, faz cosquinha em mim?

SENHOR DE UNS 50 ANOS, surpreso: Eu não, o que é isso?

GAROTO DE UNS 11 ANOS, esperançoso: Faz. Por favor.

SENHOR DE UNS 50 ANOS: Que história é essa de cosquinha? Tua mãe te acostumou assim? Isso é coisa de fresco. Eu, hein?

GAROTO DE UNS 11 ANOS: Não tem nada pra fazer aqui.

SENHOR DE UNS 50 ANOS, com uma cara de profundo desgosto: Eu sei, é um inferno. Mas quando chegar lá eu vou te levar pra pescar na lancha.

GAROTO DE UNS 11 ANOS: Pai, sabia que o meu irmão tá pegando a prima do Ricardo?

SENHOR DE UNS 50 ANOS: Tá mesmo? E o Ricardo ficou brabo?

GAROTO DE UNS 11 ANOS, entre risos: Acho que ficou, mas ele falou assim: Ah, aquela garota é muito chata, eu não gosto dela. Tomara que o Tiago coma ela!

SENHOR DE UNS 50 ANOS: Essa é boa! E você, tá pegando alguém?

GAROTO DE UNS 11 ANOS: Uma garota aí quis ficar comigo mas eu não topei.

SENHOR DE UNS 50 ANOS: É? Como é o nome dela? É gatinha?

GAROTO DE UNS 11 ANOS: Mayara. Ela é bonitinha mas não tem muito corpo. Não tem peito, não tem bunda. É o contrário do camarão. Porque o camarão você esquece a cabeça e come o corpo, né? Com ela não dá pra fazer isso. É o contrário.

SENHOR DE UNS 50 ANOS: Entendi, entendi, aí não dá.



GAROTO DE UNS 11 ANOS: Pai, faz um pouco de cosquinha, só um pouco.

SENHOR DE UNS 50 ANOS: Para com isso, Gabriel, não tem graça nenhuma. Como é que vai ser se você resolver chegar lá no futebol com essa besteira? Vai pedir ao técnico pra te fazer cosquinha? Vai pedir ao juiz? Vai chegar pro goleiro adversário e falar (voz de falsete): "Ai, faz um pouco de cosquinha em mim, faz?".

GAROTO DE UNS 11 ANOS: Ah, pai, e você soube que o tio Henrique tá namorando, né? Namorando um cara!

SENHOR DE UNS 50 ANOS: É, eu soube.

GAROTO DE UNS 11 ANOS, rindo: O tio Henrique era casado, com filho e tudo, de repente se descobriu.

SENHOR DE UNS 50 ANOS, não tão à vontade quanto o filho: "Se descobriu" é ótimo!

GAROTO DE UNS 11 ANOS: Ele organizou um jantar pra apresentar o namorado dele pra família. A minha mãe se arrumou toda e foi. Só que o tal namorado não aguenta com bebida. Ela contou que depois da segunda taça de vinho ele ficou deitado no sofá dormindo. Todo mundo lá, conversando na maior animação, o tio Henrique também, e ele dormindo!

SENHOR DE UNS 50 ANOS: Pô, o cara não aguenta duas taças de vinho? (levanta-se e olha para fora da janela) Tudo parado, filho, tudo parado. Que saco!

GAROTO DE UNS 11 ANOS: E o tio Zé, né, pai? Cheio de filho. Um filho com cada mulher. E cada uma delas quando separa dele arranja outro filho também. Agora nas férias de janeiro vai ser engraçado. Elas vêm pro Rio no mesmo voo: a tia Andrea com a filha nova e a tia Clarice, que vem com o filho que teve agora. Todo mundo vai aparecer lá em casa. E a minha avó também. Quero só ver a confusão.

SENHOR DE UNS 50 ANOS: É, o cara tá todo enrolado, cinco filhos, cheio de pensão pra pagar. Olha só pela janela, tá tudo parado lá fora, filho. Nada a fazer, só esperar. A gente vai chegar depois das dez se continuar desse jeito.

Ele afunda no banco, com ar resignado.

Depois de uma longa pausa, GAROTO DE UNS 11 ANOS: Pai, faz cosquinha em mim, faz!

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