Annelie e a Vítima da Globalização

"Amiga Morena, estou devendo há dias o relatório sobre o engenheiro colombiano que você me apresentou. Bem. Outro dia eu estava numa reunião num centro cultural no mesmo bairro do sujeito, e aquela foi uma boa reunião, então saí animada e decidi chamá-lo pra um beber um açaí antes da minha longa viagem de volta pra casa.

A minha primeira pergunta foi: ele precisa mesmo parecer TÃO engenheiro?

Aquela camisa de botão quadriculada pra dentro das calças, aquele corte de cabelo todo certinho. Se ele teve tempo de passar em casa, por que saiu todo social/esporte fino pra um encontro na rua com uma semidesconhecida?

Enfim, busquei o sujeito na estação do metrô e carreguei-o pra uma lanchonete maravilhosa que um amigo me mostrou na rua do Catete. Diante de uma tigela do néctar roxo, ele me contou seu cotidiano. Está no Rio de Janeiro há três meses e ainda não conhecia açaí (espero ter contribuído para formar mais um parceiro de vício!). Por que? Porque não sai muito de casa. Ele mora a meia dúzia de passos do Aterro do Flamengo, este colosso carioca, e nunca pôs os pés ali. Ele foi assaltado duas vezes (em Bogotá e no Leblon) e tem medo de sair à noite. Chega em casa, liga a TV pra ter companhia e assiste noticiários em diferentes idiomas, ou talvez um filme, até cair no sono. Ele se sente só e tem saudade da Colômbia. Esforço-me pra explicar que também tenho um considerável currículo de vítima urbana, mas que isso não me impede de caminhar no calçadão da Barra, nas margens da Lagoa, nas ruas de Ipanema. Falei que ali mesmo, na multidão do Catete, eu me sentia tão segura quanto possível numa cidade grande. Essa declaração derrubou o queixo do sujeito e pela cara que fez poderia ter derrubado também a Bolsa de Valores de Nova York. Sim, aqui é razoavelmente seguro. Caminhe à noite na areia de Copacabana, perto dos grandes hoteis, com uma câmera na mão e você rapidamente vai ver o que é um lugar inseguro. Ele retrucou que há um montão de pessoas sem casa perambulando pelo bairro. Assegurei que nem todas as pessoas sem casa estão prestes a cair em cima da sua carteira. Então caprichei na ênfase: Arranje uma bicicleta e saia por aí! É isso que todo mundo faz. Vá ao Aterro num sábado de manhã e você vai ver milhares de pessoas aproveitando o sol. Todo mundo que você vai ver pedalando ou caminhando ou comendo churrasquinho de gato, esse povo todo já foi assaltado. Não é nada pessoal.

E no final ele sorriu. Acho que vou convidá-lo pra um cinema qualquer hora dessas. Não senti nenhum tesão, mas é agradável conviver um pouco com alguém tão diferente da gente mesma.

E voltei a sentir um grande rancor pela globalização. Há todo um universo se desenrolando às margens da estrada, mas no mundo da economia globalizada nós só nos preocupamos em saber se o asfalto é liso o bastante pra nossos potentes carrões. Então o cara ganha bem e faz uma bela carreira perfurando poços de petróleo em Houston e no México e na Venezuela, mas é refém da própria ignorância sobre o mundo onde vive. Esse cara está, como disse o Djavan, “morrendo de sede em frente ao mar”. Besos! Anne".

Nenhum comentário: