Eu estava passeando no condomínio com a minha querida pastora Tui. Eu estava bebendo uma caneca de chá quentinha. Eu estava respirando depois de uma formidável aula de pilates e saboreando a folga daquela manhã. Eu estava fazendo tudo isso ao mesmo tempo, quando me lembrei que tinha marcado almoço com o sujeito que você me indicou e que vou chamar de sr. Cordão Umbilical. Todos saberemos a razão do apelido. Não há porque ter pressa.
Então quarenta minutos depois eu estava ali, diante do sujeito, atrasada mas cheia de boas intenções. Fui de salmão grelhado com talharim e salada. Ele mandou vir carne assada com batatas e um chope, depois outro chope. Fiquei olhando praquela barriga de quem há séculos não vê nenhum tipo de exercício e concluí que só por uma questão de intuição e fé ele ainda encontra o pinto quando precisa. Descobri que ele tem só 37 anos. Céus! É tão humilhante assim dar uma nadadinha, uma corridinha, pedalar? É alguma coisa que nossos parentes não possam nos ver fazendo nas horas vagas?
OK, deixemos isso de lado. Adorei saber que ele foi criado em comunidade, no tempo em que elas vibravam mais com o samba do que com os tiros. Samba e futebol são assuntos que ele adora e ouvir isso é maravilhoso quando se é uma estrangeira que adora estar no Rio. Embalada pelas boas notícias, fui adiante. Você gosta de cinema? Gosto, mas nunca vou. Trabalho de dia e de noite tô estudando pra um concurso que vou fazer no judiciário. Moro sozinho e fico muito em casa, estudando ou vendo tv. Jura que você nunca sai pra pegar um filminho? E teatro, gosta? Teatro é caro, muito caro pra mim. Como assim? Semana passada vi uma peça maravilhosa por 30 reais, o que não chega a ser um insulto, concorda? E foi nesse ponto que o rapaz revelou sua veia ressentida. Olhou pra mim com um certo desprezo e respondeu: Olha, eu não nasci num berço de ouro. Tudo que eu conquistei foi pela minha família. E vou continuar trabalhando muito pra dar a eles as coisas que não puderam me dar. A minha família é o mais importante pra mim e a mulher que ficar comigo vai ter que entender isso.

Fiquei com vontade de perguntar se ele realmente acredita que sua família precisa tanto dele. Fiquei com vontade de perguntar: É assim que você os vê, como pintinhos famintos e dependentes, os biquinhos escancaradas à espera das migalhas que você cuspirá?
Ele prosseguiu dizendo que, se passar no concurso, vai poder realizar seu sonho de comprar um terreno no subúrbio em que nasceu e ali instalar uma bi-residência. Ah, interessante, mas você vai ter que me explicar esse conceito. Duas casas interligadas, um projeto que você encomenda e um arquiteto faz. Mas qual o objetivo? Morar junto dos meus pais, do meu irmão, da minha cunhada e da minha sobrinha. Uma casa é minha, a outra deles.
Fiquei em silêncio, refletindo sobre minha recente descoberta no ramo da arquitetura. Bi-residência. Eu não tenho a menor vontade de conhecer uma bi-residência.
Se posso resumir, é isso: o rapaz é inteligente e atraente, mas parece não ter planos de abrir o coração. Ele terá que esquadrinhar o universo em busca de uma mulher que se enquadre em seu tacanho projeto de vida - é isso ou nada.
Capricha mais no próximo, tá? Besos, Anne.
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