Os meus amigos

Episódio 3 - A voz de Zina

Zina tem uma garganta naturalmente potente e isto é mais ou menos como esses fatos extraordinários da natureza, uma erupção vulcânica ou uma pororoca, que alguns celebram e muitos temem.

Na hora do almoço, os restaurantes do centro da cidade parecem um estádio de futebol em dia de clássico. Meio mundo está lá e eu tenho pena das pobres garotas uniformizadas que tomam pisões e cotoveladas por todos os lados quando tentam organizar as filas de clientes famintos e encaminhá-los a suas mesas.

Almoço com LUIS e ZINA num restaurante abarrotado no centro da cidade

LUIS: Ah, e no sábado passado fui a uma casa de suingue.

ZINA: Não brincaaaaa!

LUIS, olhando em volta: Fala baixo.

MORENA, antecipando a catástrofe: Ela não consegue.

LUIS, acabrunhado: Não vou falar mais nada.

ZINA, empolgando-se: Ah, não, você começou agora continua. Você foi à casa de suingue! Com quem?

LUIS: Com a minha namorada.

ZINA: Eu não sabia que a Luana era toda liberadinha assim.

LUIS: E não era. Mas fiquei um tempão conversando com ela e no fim das contas eu a convenci.

ZINA: Não acreditoooooo! E o que vocês fizeram lá? Quem você comeu?

LUIS: Ninguém. Quero dizer, comi a Luana.

ZINA: Como assim? Não, não, você não pode estar falando sério.

LUIS: É, foi isso mesmo, chegamos lá, bebemos umas caipirinhas e fomos pro tatame.

MORENA: Isso não é uma certa falta de criatividade?

ZINA, subindo uma oitava: Luis, você não pode estar falando sério.

LUIS, começando a se irritar: Você quer um microfone, Zina?

ZINA: Não, meu filho, convenhamos, você tá brincando comigo. Quanto custou essa brincadeira?

LUIS: Sei lá, porra. Cem pratas pra entrar, trinta pratas pelas caipirinhas.

ZINA: Por cabeça? Cento e trinta por cabeça?

LUIS: É.

ZINA: Vocês dividiram ou você pagou?

LUIS, transpirando na testa: Não, eu paguei. Ela não queria nem ir, quanto mais pagar. E fala baixo, cacete. As pessoas estão olhando.

ZINA, no auge do entusiasmo: Você pagou duzentos e sessenta reais pra ir numa casa de suingue comer a tua própria mulher?

Agora o nível estrondoso de decibeis do restaurante sofreu uma queda admirável. Aparentemente, ouvir a voz da Zina tornou-se um excelente programa para a hora do almoço. “O que você recomenda pra hoje, garçom”? “Salada verde - as verduras estão bem frescas -, salmão com creme de palmito e a Zina discutindo aos berros a vida sexual de seu amigo”. “Perfeito, é isso mesmo, pode trazer”.

MORENA, conciliadora: Zina, isso é uma questão muito pessoal. Ele tem o direito de não comer outra mulher que não seja a dele. Até na Constituição Federal deve ter isso escrito.

ZINA: Duzentos e sessenta reais? Fora o flanelinha? Pra comer a tua própria mulher, a mesma que você come todo dia quando chega de noite em casa?

LUIS, desafiador: Foi isso mesmo. Fala mais alto, vai. Tá todo mundo adorando ouvir isso.

ZINA: A mesma mulher de sempre, com a mesma xoxota de sempre? Numa casa de suinge? Por duzentos e sessenta reais? Sinceramente!

A cortina se fecha sobre o milagre de um restaurante lotado e completamente silencioso.

Luzes apagadas, a plateia ainda ouve aquela voz triunfal, absoluta.

ZINA: E os mesmos peitos, a mesma bunda de sempre? Fala sério, Luis. Fala sério.

Um comentário:

Anônimo disse...

dá pra imaginar exatamente tudo, o restaurante, a voz dela...