O sonho de uma viajante só

São 40 quilômetros no rastro da lua cheia e eu sentindo sua falta fico ouvindo as conversas no ônibus e me busco no que as pessoas dizem; na entrada da baía vejo lodo por toda parte e também as imensas engrenagens da plataforma de gás deitada sobre o lodo e imagino as milhares de soldas e cabos e chapas e blocos necessárias pra erguê-la e fazê-la flutuar no oceano; estranhas as nossas mentes que produzem aparências míticas, esse monstros de aço tão humano; perto de mim duas garotas conversavam, garotas que vieram de cidades menores e estão aos poucos se estabelecendo no mundão com casas e empregos; elas discutem o cansaço do trabalho e do transporte e do estágio e da pós-graduação, não como quem chora mazelas e sim num tom soberano de quem partilha obstáculos sem se deixar abater por eles e assim elas soam totalmente donas de suas vidas e não falam de seus homens porque talvez não os tenham; pais e parentes nas províncias talvez chorem por elas e pensem que melhor seria se estivessem casadas e sob supervisão mas este é um tempo em que mulheres jovens decolam como foguetes e que bom este país em que elas não são forçadas a usar panos sobre as faces ou que não lhes cortem os grelos por pura maldade; que bom este país em que elas podem conquistar e florescer ainda que cansadas; nas praias da baía só umas ondinhas lambendo as areias, suave e tranquila esta maré de lua cheia que presencio enquanto sinto sua falta de um jeito tragável; e toda a gente caminhando e correndo pela orla, a faixa de areia está imensa porque a maré encolheu sob o comando da lua; vejo gente vigorosa e risonha e vejo os times de futebol masculino e feminino e também os times de vôlei com adolescentes, casaizinhos aqui e ali sussurrando suas vidas breves e por fim reparo com muita atenção que duas moças conversam pousadas sobre a areia, uma delas recostada na trave do campo desocupado de futebol, elas têm ar sério e pode ser que estejam confabulando aqueles graves e intermináveis segredos de amigas e eu embalo os gritos do meu próprio segredo, que é a tua ausência e o sonho de seguirmos juntos: primeiro, o reencontro que nos surpreenderá com riso e lágrimas, depois o sabor misterioso das noites e dos dias.

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