
* Comemorei o ano novo sozinha contemplando as águas tranquilas da baía; não havia ninguém num raio de cem metros. Lá pelas duas da manhã, chegaram dois vizinhos e partilhamos nossas garrafas: a deles, a velha cachaça de sempre. "Que troço horrível, deusquemeperdoe!", gritaram eles, torcendo as caras quando provaram meu champanhe.
* Casei naquela mesma rocha com um forasteiro ruivo; na nossa rápida cerimônia o dono do boteco foi ao mesmo tempo testemunha e celebrante; os "anéis" foram arrancados de duas latinhas de cerveja.
* Encarei a tela preta durante uma festa no bar do navegador louro, enquanto três rapazes rebolavam em cima da mesa; dois deles cantando "Go, go, go/ aller, aller, aller" e o terceiro gritando que queria dólares em sua sunga.
* Lembrei vagamente de avisar os amigos que ainda estava viva e entrei na fila do telefone público, plantado como uma árvore no meio de uma clareira entre dois povoados. A mulher que estava imediatamente à minha frente foi picada por uma cobra venenosa e desmaiou depois de um par de gritos; mudei de ideia e resolvi deixar que me esquecessem.

* Minha amiga e eu lutamos durante um dia inteiro pra retirar toda a areia de cima dos móveis, da cama, dos utensílios da cozinha; acabamos à noite e comemoramos com cervejas a chegada de uma linda noite de verão. Devidamente anestesiadas, levamos colchões para a areia da praia e fomos dormir ao relento, o que decretou a inutilidade completa da operação faxina. Ah, e no dia seguinte descobri que a minha amiga era menor de idade.
* Decidida a ir embora, subi a rocha com uma camisa branca e me pus a acenar para todos os barcos. Parou um, pilotado por dois irmãos que comerciavam a erva, e depois de muita cachaça, fumaça e navegação desnorteada aportaram a mais de quarenta quilômetros do lugar para onde pretendíamos ir.
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