A Ilha e eu

Existirá porventura na memória de alguns uma certa ilha tropical, a maior das muitas que se espalham por uma costa de águas semitransparentes, verdes e cálidas; tal ilha ergue-se diante de um oceano antes ameaçador, agora submisso; ao marinheiro aflito surge o alívio de uma paisagem de florestas exuberantes, as quais mais tarde ele descobrirá serem cortadas por caminhos úmidos. Ele enfrentará as serpentes e cães selvagens que brotam destas trilhas como por obra de feiticeiros; ele persistirá na caminhada e será recompensado com a visão anestesiante dos povoados de areia e mansas águas, pequenas aldeias de gente mui simpática e afeta ao uso das canoas e da cachaça, e depois de algum tempo de convívio com aquele povo sorridente e desapressado terá a sensação de que absurdos são possíveis já que a ilusão do tempo foi finalmente desmoralizada. Concluída a descrição da nossa ilha, passo a narrar os fatos que ali ocorreram.


* Comemorei o ano novo sozinha contemplando as águas tranquilas da baía; não havia ninguém num raio de cem metros. Lá pelas duas da manhã, chegaram dois vizinhos e partilhamos nossas garrafas: a deles, a velha cachaça de sempre. "Que troço horrível, deusquemeperdoe!", gritaram eles, torcendo as caras quando provaram meu champanhe.

* Casei naquela mesma rocha com um forasteiro ruivo; na nossa rápida cerimônia o dono do boteco foi ao mesmo tempo testemunha e celebrante; os "anéis" foram arrancados de duas latinhas de cerveja.

* Encarei a tela preta durante uma festa no bar do navegador louro, enquanto três rapazes rebolavam em cima da mesa; dois deles cantando "Go, go, go/ aller, aller, aller" e o terceiro gritando que queria dólares em sua sunga.

* Lembrei vagamente de avisar os amigos que ainda estava viva e entrei na fila do telefone público, plantado como uma árvore no meio de uma clareira entre dois povoados. A mulher que estava imediatamente à minha frente foi picada por uma cobra venenosa e desmaiou depois de um par de gritos; mudei de ideia e resolvi deixar que me esquecessem.




* Minha amiga e eu lutamos durante um dia inteiro pra retirar toda a areia de cima dos móveis, da cama, dos utensílios da cozinha; acabamos à noite e comemoramos com cervejas a chegada de uma linda noite de verão. Devidamente anestesiadas, levamos colchões para a areia da praia e fomos dormir ao relento, o que decretou a inutilidade completa da operação faxina. Ah, e no dia seguinte descobri que a minha amiga era menor de idade.

* Decidida a ir embora, subi a rocha com uma camisa branca e me pus a acenar para todos os barcos. Parou um, pilotado por dois irmãos que comerciavam a erva, e depois de muita cachaça, fumaça e navegação desnorteada aportaram a mais de quarenta quilômetros do lugar para onde pretendíamos ir.


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