Manifesto Mayo da Infelicidade Inofensiva

Texto maravilhoso da irlandesa Anna Mayo, filósofa e cineasta.

“Quando eu era adolescente, minha mãe tinha uma tática de tentar nos enquadrar louvando incansavelmente os filhos da nossa vizinha, a tia Kathy. Tudo bem, eram três fortões que pareciam recém-saídos de um filme de surfe - tremendo contraste, porque minhas duas irmãs e eu éramos aquelas garotas que você não convidaria pra um filme publicitário com elenco infantil. Magricelas, despenteadas, usávamos óculos, preferíamos os livros aos esportes e, pra piorar a situação, simpatizávamos com os maconheiros e comunistas do bairro.

Inconformada, a mãe aliviava o recalque elogiando os tais mancebos como se fossem the future of the fucking nation: lindos, inteligentes, magnetizadores da mulherada, excelentes partidos.

Pois deixe que eu lhes dê notícias dos maravilhosos filhos da tia Kathy. Trinta anos depois, estão mofando em empregos tediosos e mal-pagos, têm coleções de relacionamentos fracassados dos quais resultaram vultosas pensões alimentícias; cultivam pancinhas alimentadas por muitas horas em frente à TV e ao play station, sem falar nas rugas e entradas. Parem o filme. O que houve com aquele glamour todo, mamãe?

Se você fuçar o prontuário da minha passagem por este planeta, vai encontrar as frustrações de sempre. Família: discussões amargas, separações, exílios, ocasionais passagens por delegacias de polícia. Relações amorosas: desastre, desastre. Trabalho: tapetes puxados, prostituição velada ou explícita, mentira legalizada, na melhor das hipóteses um tédio benigno.

Eu acho escandaloso que as crianças sejam encorajadas a se espelhar em histórias de princesas e heróis. Eu acho que as crianças têm muito mais a ganhar quando recebem fartos esclarecimentos sobre a fila do banco, o carro que quebra, o chefe que te trata como escória, a tia que toma medicação psiquiátrica, a prima que engravidou de um semidesconhecido depois da bebedeira da festa da empresa. Só pra começar.

Penso tudo isso porque cresci acreditando que seria um bom negócio me tornar uma pessoa convencional para encontrar a felicidade no mundo convencional. Quebrei a cara com isso e hoje sou uma pessoa razoavelmente infeliz e frustrada. O que não é nada demais.




Não, eu não preciso que você concorde, eu tampouco gosto de pensar assim. Queria acreditar que efetivamente se "chega" a algum lugar no mundo, que é possível conquistar situações favoráveis e mantê-las, desde que se persevere e se gaste a necessária energia. Mas tenho dois bons olhos e um par de ouvidos razoáveis. Sei ver e ouvir a gente ao meu redor e suas histórias são bem parecidas com as minhas. Podemos acessar o tesouro da felicidade no bom coração, nos valores como a gratidão e o altruísmo e no formidável ato de compartilhar. O problema é que não nos ensinam isso. Não. Ensinam que felicidade e estabilidade estão guardadas pra nós num baú customizado e que se formos espertos e esforçados o bastante seguiremos as pistas até encontrá-lo. Poupem tempo. Parem com isso.

Eu sou uma pessoa que seguiu as pistas. Fiz o que esperavam de mim. Quando os métodos tradicionais falharam, dei lá minhas apeladinhas. Querem saber o resultado?

Equações.

Sim, equações. Querem conhecê-las?

bebedeiras = infeliz e deselegante
chocolate em excesso = infeliz e com uma pele péssima
malhação desenfreada = infeliz, burra e com lesões variadas

Parei de tentar, mas sei que a lista é infinita.

cosméticos e cirurgias = infeliz e esquisita
sexo sem critérios = infeliz e carente
bolsas e sapatos de grife = infeliz e endividada

Hoje acredito numa infelicidade banal, cotidiana, inofensiva. Detesto ficar chorosa em casa, agindo como se ser infeliz fosse algo estranho e vergonhoso no contexto do mundo convencional.

Eu assumo a infelicidade, convivo com ela. Eu a levo pra ver filmes, olhar museus, ver o mar num dia cinzento, arder sob o sol no parque, num dia claro. Gosto de falar sobre a infelicidade e de saber como os amigos estão lidando com ela. Às vezes rimos dela, outras vezes ela ri e nós choramos, mas o importante é que fazemos isso juntos.

Deveríamos experimentar talvez criar o nosso Dia Pessoal da Infelicidade Inofensiva. Pode ser o aniversário daquele pé na bunda que enterrou nossas expectativas de um destino feliz. Pode ser o Natal em que uma família de psicóticos, deprimidos e mal-intencionados nos espera em volta de um patético prato de ave assada. Pode ser aquele dia em que você foi demitido depois de ter dado o sangue por uma empresa corrupta, apenas porque era `a pessoa cara da equipe´. Ou quando sua namorada está pondo um lindo vestido pra ser madrinha de um casamento junto com o ex-marido e te diz docemente que é melhor você não ir, para não criar confusão.

Toda esta dor é criação nossa e pode ser trabalhada e digerida por nós, não tenha dúvida.

Quer começar?"

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