Ai se eu fosse cineasta...

O lugar: decorado com lanternas chinesas e ao fundo um megapôster do mausoléu do camarada Mao Zedong, com direito ao penteadinho bufante com que ele gostava de ser retratado.

Brumas por toda parte. Produzidas por uma grande chapa do outro lado do balcão.

Morena, esperando com muita fome por um bifun de "dez real". Olha para a moça do caixa com cara de aflição.

A moça do caixa está lixando as unhas e faz cara de quem não tem nada com isso.

Uma mulher grande, de cabelos bem curtinhos e um daqueles adesivos indianos colado entre as sobrancelhas está conversando de pé com a freguesa da frente.

MULHER GRANDE: Eu sou espírita e sei muito bem disso: quem não sabe se reciclar internamente não tá preparado pra viver na Terra.

Morena olha ansiosa para os dois cozinheiros que se mexem tranquilamente em meio à neblina da chapa.

Um dos cozinheiros olha pra ela.

O cozinheiro sorri e começa a cantarolar.

A canção que o cozinheiro canta é a seguinte:

"Você bem sabe/ que não lhe prometi um mar de rosas/ nem sempre o sol brilha/ também há dias em que a chuva caai".

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