Brave new job

Olá, eu sou Morena e estou aqui pra falar sobre os primeiros e emocionantes dez dias no meu novo emprego. Vocês podem considerar estes fatos como verdadeiros, embora eu possa ter esquecido ou acrescentado um ou outro detalhe. Eu adoraria poder dizer os nomes dos personagens e sei que você que está lendo também adoraria ouvi-los, mas convenhamos que neste momento nós não estamos bêbados o suficiente pra esquecer tudo amanhã de manhã. Eu, pelo menos, não estou. Então ficamos combinados assim, sem nomes, narrativa em três partes pra não cansar o autor, muito menos o leitor.

PARTE 1 - De carona com o chefe

CHEFE, buzinando irritado para a moça que acaba de desocupar a vaga, pouco mais adiante: Ai, porra, neguinho faz muita merda na saída dessa garagem. Quando é mulher então... olha essa aí... burra! Não sabe sair de uma vaga. Idiota!

MORENA: Queisso, cara, que preconceito, hein?

CHEFE: Porra, eu quero sair daqui e ela tá atrapalhando. Não vejo a hora de sair desse prédio, olhar o mundo lá fora.

MORENA: Pra que tanta ansiedade?

CHEFE: Você vai saber já, já.

Intervalo correspondente à manobra entre as vagas e à descida da rampa. Momento tenso para ambos, por diferentes razões.

CHEFE: Ai, nem acredito que tô fora daqui. Agora pega aí por favor no meu porta-luvas uma caneta Mont Blanc, tá vendo ela aí?

MORENA: Tô vendo. Caneta chique, né, chefe?

CHEFE: Chique e linda minha canetinha. Agora desatarraxa ela aí. Abre, isso, desatarraxa. Conseguiu? Olha o que tem dentro.

MORENA gira, intrigada, a parte de cima da caneta até separá-la do corpo. Surge um papelzinho enrolado em forma de cigarro e o cheiro de erva espalha-se com força pelo carro.

CHEFE, afrouxando o nó da gravata com um estranho grunhido de prazer e vingança: Ahhhhhh! Que beleza! Passa já esse negócio aceso pra cá! Agora você descobriu porque eu queria tanto sair do prédio, né?

MORENA, olhando com igual perplexidade para a erva e para a situação: É, agora eu entendi.

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