Recém-assaltada

Caro tio Buda:

Ainda estou fazendo um inventário do assalto, bem, do ponto de vista estritamente mundano.

O MP3 se salvou, viva!

A mochila se foi, mas não é grande coisa; afinal eu tinha pedido muito pro cara da loja achar uma que não fosse vermelha e preta. Sem preconceito, só achei que seria meio desconfortável sair por aí com um emblema futebolístico pendurado nas costas.

Das coisas que levaram, estou com saudade, em ordem decrescente de intensidade:

do batom que deixava meu rosto mais alegre e vivo;

do dinheiro que... e... e... e..., bem, você sabe, pra nós que ainda não somos Iluminados é grande a lista das possibilidades que o dinheiro traz;

do chaveiro chinfrento, grande coração vermelho, inspirado pelas deidades rubras que tanto vi nas tangkas do Nepal;

do cadarço do allstar, num tom laranja berrante, que eu usava no lugar do cordelete que rebentou depois dos trancos das trilhas e velejadas;

da chave da casa porque provavelmente vou ter que encher o saco de alguém pra abrir pra mim na volta e já que você conhece bem meus amigos sabe que tenho razões pra achar que na hora H esse alguém talvez esteja bêbado ou trabalhando ou namorando ou igualmente inacessível por outra razão intensa qualquer;

dos óculos escuros que a Robertta me vendeu e que eram grotescamente grandes, cumprindo a dupla função de espantar o sol e de criar uma atmosfera de atriz decadente de Hollywood anos 60.

Ah, tio, você talvez goste de saber que os assaltantes foram devidamente perdoados. Na verdade estou até um pouco grata por ele ter apenas mostrado o revólver, em vez de enfiá-lo na minha cabeça, e por ter decentemente esperado que eu desembarcasse primeiro do estado de estupor; segundo, do próprio carro.

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