O dia em que Gregor Samsa ganhou a guerra


"Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado viu que se transformara, em sua cama, numa espécie monstruosa de inseto".


Chegaram à casa quando estavam particularmente cansados, cansados o suficiente pra ignorar o cheiro de mofo e os corredores de cupins e o trajeto das infiltrações criando desenhos nos cantos das paredes. Mas quando ela retirou a colcha mofada da cama para trocar pelo lençol limpo que trazia na mochila, uma barata escapou. Era uma barata gorda, reluzente, quase do tamanho da palma de sua mão. Deslizou como bêbada pela colcha e tratou de sumir para a escuridão, que é o que as baratas basicamente fazem ao longo de suas perseguidas existências.

ELA, assustada: Olha o baratão, olha o baratão! Caraca, acho que nunca vi uma tão grande!

ELE: E agora?

ELA: Como assim? Ela foi embora. A gente troca os lençóis, esquece, vai dormir.

ELE: Eu não vou dormir aqui.

ELA: Tá maluco? A gente tá cansado. A barata já foi.

ELE: Você não tá entendendo. A barata mora aqui. Ela dorme aqui, nessa cama, todos os dias.

ELA: E daí?

ELE: Daí que se a gente dormir aqui ela vai aparecer de novo. Vai ficar passeando em cima da gente. Pode até atacar a gente. Tu viu o tamanho dela? Aff... não quero nem pensar, se uma barata dessas me puxar pelo cabelo é capaz de me levantar e me arrastar pra longe. É isso que você quer?

ELA, irônica: Que coisa linda. Você tem medinho de barata. Ai meu saco. Tudo que eu mereço a essa hora, cansada do jeito que eu tô.

ELE: Aconteceu comigo outra vez que fui dormir num quartinho alugado no meio do mato. As baratas estavam acostumadas a dormir na cama e quando eu me deitei elas ficaram passeando em cima de mim. Foi horrível!

ELA: Tá, mas nesse caso era só uma barata e ela já foi embora.

ELE, cada vez mais nervoso: Então você acha que uma baratona daquele tamanho vive aqui sozinha? Claro que não! Ela deve ser a mãe de um montão de outras baratinhas que mal podem esperar a hora da gente apagar a luz pra invadir essa cama. Eu não durmo aqui.

ELA: Mas o outro colchão tá todo mofado! Olha só, a gente vai ficar aqui e a barata vai ter que aprender a dividir o espaço dela. Todo mundo tem que ceder um dia. Quando chega visita na casa as pessoas não são obrigadas a ceder espaço pra visita? Então. Ela que aprenda!

Gregor Samsa ficou com sua cama. Os amigos arrastaram o colchão mofado de uns trinta quilos ao longo de uma escada em caracol, parcialmente enferrujada, e foram dormir num canto da casa empesteado de ar quente e mosquitos. Dormir? Eu disse dormir?

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