Às 16h
O sujeito agora resolveu que vai tomar banho de mar do jeito que veio ao mundo. Fica transitando nu, subindo e descendo pela escadinha, dando uns mergulhinhos, futucando os cabos e as velas.
Passa uma lancha com rapazes que ouvem pagode em alto volume.
Passa uma lancha com um grupo de idosos que se contenta em pescar sem ouvir música.
Passa uma lancha com uns quatro caras curtindo The Police no último volume e mesmo assim eu consigo ouvir seus comentários:
"Olha lá, maluco, o cara do veleiro tá pelado!".
"Ih, é mermo! quer deixar o passarinho bem bronzeado pra festa de Ano Novo".
Às 19h
Pelado só não.
Ele está possuído. Decidiu armar uma rede no pau do balão e ficar ali balançando desafiadoramente, logo depois de comer meia panela de miojo. Isso me põe as tripas pra fora só de olhar!
Essa ilha Comprida tem alguma coisa que mexe com meus nervos. Não consigo
relaxar aqui.
Às 20h30
Eu quase posso jurar que estamos derivando pra cima da ilha Comprida.
Mostrei a situação ao comandante do veleiro mas ele avisa que está enjoado
e que precisa dormir um pouco.
Como assim está enjoado? Como assim dormir?
O sujeito boceja e aponta casualmente pra ilha.
"Isso aí é só o barco girando. Não tem problema nenhum".
Às 23h45
Ele acorda e vai ao "banheiro" na popa e leva um susto que quase paralisa seu xixi no meio do caminho entre a bexiga e o mar.
"Caraca, estamos derivando pra cima da ilha Comprida!"
"Porra, eu falei isso há umas duas horas e você falou que era só o barco girando. Eu me recuso a sair daqui. Logo vai ser Ano Novo e quero me sentar em paz pra ver os fogos!".
“Vai gostar de ver os fogos navegando suavemente com corrente a favor?”
“Acho que sim”.
“E de ver os fogos encalhada numa ilha fantasma, toda molhada, morrendo de frio, com o barco fazendo água?”
“Acho que não”.
“Então me ajuda a subir essa âncora e vambora daqui”.
À meia-noite
Oba! É Ano Novo!
Todos os luxuosos navios turísticos ao nosso redor fazem soar seus apitos.
O céu está muito colorido.
Temos um Lambrusco a bordo. Desculpas aos que possam se ofender, mas um Lambrusco pra mim é má notícia, mesmo geladinho e numa dessas datas em que a premência por álcool nos torna pouco exigentes. E esse Lambrusco aqui foi chacoalhado numa caixa
fechada com um punhado de gelo que derreteu quando ainda pensávamos que
íamos pra ilha, vinte e quatro horas atrás.
"Eu não quero beber esse negócio quente e choco!", gritei.
O cara não se perturbou. "Você não vai beber. Só nós três vamos beber".
"Nós três?"
"Eu" (abocanha o gargalo e vira a garrafa e eu fico acompanhando aterrorizada os movimentos ascendentes e descendentes do gogó da sua garganta). "Netuno" (joga um tanto do liquidozinho borbulhante no mar). "E o barco" (derrama a coisa repulsiva
sobre o casco do barco).
Então tá. Façam bom proveito! Você, Netuno e o barco.
Às 2h30
Depois de driblar a falta de vento e uns cinco enormes transatlânticos espalhados na saída do canal da baía, ele está bravamente nos trazendo de volta pra poita. Meu herói!
Meu herói?! Você está acordado, meu herói?
"Caraca, cochilei no leme".
"Percebi. E esse rumo tá esquisito pra cacete. Olha aqui, maluco, se eu esticar a mão vou tocar numa pedra enorme que tá bem aqui do nosso lado.
"Tô fazendo de propósito”.
“Pra que? Pra me matar de medo?”
“Não. Pra economizar caminho"
Às 4h
Hum, acho que estão um pouquinho bêbados os três. Ele, Netuno e o barco.
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2 comentários:
Surreal demais... isso tudo aconteceu ou é mais uma insanidade da sua mente louca?
A mensagem tem detalhes demais pra ser totalmente falsa. E pensa bem. Uma pessoa que bebe Gatorade sabor açaí não pode ter imaginação pra inventar isso tudo.
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