Mensagem encontrada numa garrafa de Gatorade sabor açaí na praia de Copacabana Parte 1

A mensagem diz o seguinte:

Gente, eu fui uma menina que gostava de subir em jambeiros. Na minha rua a molecada se contentava em sacudir os jambeiros com uma vara até que soltassem os jambos mais maduros, aqueles que já estavam se desapegando dos galhos. Tinha até uns modelos de varas com umas latinhas amarradas na ponta, alta tecnologia. Mas juro que eu só me sentia feliz se pudesse subir lá, entre arranhões, cabeçadas e eventuais quedas, pra capturar aquelas gostosuras com minhas próprias mãos. Deve ser por isso que tudo isso está acontecendo.

Explico melhor. Eu costumava beber chimarrão com esse cara em seu barquinho em frente à enseada e a conversa sempre voltava ao mesmo ponto: Ano Novo na ilha. Cuia vai, bomba vem, lua cheia e pôr do sol e o assunto acabava em Ano Novo na ilha. Até que percebi: aquilo era um convite! Na mesma hora vislumbrei um jambeiro frondoso, repleto de jambos suculentos, com aquela cor entre o magenta e o roxo que indica o melhor momento da safra.

Pois bem. Agora vou falar dos frutos que eu colhi.

Às 21h
Vejo que foram embarcados dois grandes galões de gasolina e resolvi perguntar onde eles viajariam. A resposta aterrissou aos
berros: "CLARO QUE LÁ FORA! TÁ MALUCA, É"? Lá fora, tudo bem, que alívio, mas onde? Aparentemente não era um bom momento pra fazer perguntas. Vamos partir
agora e o sujeito está uma pilha de nervos. Além disso, eu estava falando
apenas de quarenta litros de uma coisa inflamável. Por que a preocupação?

À meia-noite
Fui informada de que deveria procurar um "farol flamejante" perto de uma
ilha de escarpas altas chamada Bicuda. Porque esse farol indicava uma laje maldita devoradora de
barcos. "Desculpa, mas não tô vendo nada flamejante por aqui".
Aliás, esse adjetivo é bem boiola. Vocês marinheiros são todos umas
bichonas.
"Bem, vamos ter que ficar bem atentos na próxima meia hora porque essa laje
está perto".
Bicho, bastou ele falar isso e uma neblina macabra desceu sobre o mar,
eliminando nossas chances de avistar a laje ou a ilha Bicuda ou Netuno
fantasiado de Marilyn Monroe ou qualquer bosta que fosse. Eu mal via a
espuminha que ficava pra trás com a passagem do motor. As luzes da praia tinham se reduzido a um colarzinho de miçangas brilhantes.
Seguimos no mesmo rumo e quando a neblina subiu de alguma maneira tínhamos
passado da tal laje.
Não entendo nada de barco, mas começo a achar que no mar você ser um cara
cagão vale muito mais do que ter um bom GPS.

Às quatro da manhã
O vento estava numa direção tão esquisita que segundo entendi teríamos que
apontar o barco para Angola se quiséssemos chegar a Angra dos Reis.
Isso está mesmo acontecendo?
Por que comigo?
"Talvez seja melhor a gente mudar de destino".
"Por que"?
"Tá vendo aqueles golfinhos lindos bem ali?"
"Ai, sim, que lindinhos"!
"É. Acho que eles estão nos dizendo pra dar meia volta".
Ah, tá. Golfinhos, que legal. E eu que pensava que as pessoas usassem as previsões meteorológicas pra decidir esse tipo de coisa.
"E o que diz a previsão meteorológica"?
"Diz que a gente não deveria ter vindo".

Às 14h
Ele decide ancorar na ilha Comprida e comenta casualmente, como se checasse
os ingredientes de um novo esmalte de unhas: "Vem cá, o fundo aqui é de
areia, não é? Eu acho que é".
Eu, alarmada: "Você não viu na carta náutica?"
"A carta não diz".
Eu, com a corrente da âncora na mão: "Então o que é que eu faço??"
"Pede proteção a Deus e joga essa merda no mar".

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