E ainda dormindo abri os olhos e a janela, estremeci no saco de dormir e a sua voz cantava lá fora, e procurei por esta voz e vi luz e orvalho e tangerinas e o grande cão branco olhando o céu e vi a água vertida sobre a lama arroxeada e pensei: como é estranho que a voz esteja mas não ela; talvez a voz não seja só dela; no começo era mas o tempo passou e finalmente a luz e o orvalho e as tangerinas e o grande cão branco e também o céu e a água vertida sobre a lama arroxeada aprenderam a cantar exatamente como ela. E ainda dormindo fui até a cozinha e joguei água nos cantos do rosto, limpando o restinho da noite para que você me visse com uns olhos recém-amanhecidos, e arrumei a cafeteira italiana com o tanto de café que você gosta e esperei, tremendo sobre as rosas de azulejo que você colou no cimento do piso; esperei até que o cheiro negro caminhasse longe e te encontrasse e ambos se percebessem com clareza. E quando você entrou em casa e me olhou rindo e perguntou pelo café eu calada sorri e apontei o fogão e fiquei imaginando que divertido era abrir a porta para a luz e o orvalho e as tangerinas e o grande cão branco e o céu e a água vertida sobre a lama arroxeada e também para as botas marrons e o mel e o ar frio e o martelo de cabo curto que você trazia nas mãos; a tua voz entrou e todos entraram juntos! Você se sentou com a sua xícara e imediatamente todos se acomodaram no piso sobre as rosas de azulejo; ah sim, porque você não nasceu para andar sozinha pela terra; é desbocada e tem olhos de quem sabe achar tesouros futucando por baixo das pedras do rio. E enquanto olhava sua garganta subir e descer eu ao mesmo tempo estava no meio das folhas catando uns moranguinhos bem rosados e estava bebê numa cama grande, chorando mas não de fome, e o teu braço estendido fazia sumir o medo.
... então sorrio mais uma vez para as tuas mãos aquecendo a xícara e aquecendo o mundo e penso que enfim é bom ter crescido e ficado velha e chegado até ali num Fusca velho e sinto vontade de pegar minha Bic velha e escrever no platô da tua escápula no meio das sardas só uns poucos versinhos do Velho...
“Yo debo repartirme
hasta que todo sea día
hasta que todo sea claridad
y alegría en la tierra”
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2 comentários:
Essa é uma das Elementares?
eu acho essas muito lindas!
Esperta, hein?
Segue inteirinha pra vc.
ODA A LA CLARIDAD
La tempestad dejó
sobre la hierba
hilos de pino, agujas,
y el sol en la cola del viento.
Un azul dirigido
llena el mundo.
Oh día pleno, oh fruto del espacio,
mi cuerpo es una copa
en que la luz y el aire
caen como cascadas.
Toco el agua marina.
Sabor de fuego verde,
de beso ancho y amargo
tienen las nuevas olas
de este dá.
Tejen su trama de oro
las cigarras en la altura sonora.
La boca de la vida besa mi boca.
Vivo, amo y soy amado.
Recibo en mi ser cuanto existe.
Estoy sentado en una piedra: en ella tocan las aguas y las silabas de la selva,
la claridad sombría del manantial que llega a visitarme.
Toco el tronco de cedro cuyas arrugas me hablan del tiempo y de la tierra. Marcho y voy con los ríos cantando con los ríos,
ancho, fresco y aéreo en este nuevo día,
y lo recibo,
siento cómo entra en mi pecho,
mira con mis ojos.
Yo soy yo soy el día,
soy la luz.
Por eso tengo deberes de mañana,
trabajos de mediodía.
Debo andar con el viento y el agua,
abrir ventanas,
echar abajo puertas,
romper muros,
iluminar rincones.
No puedo quedarme sentado.
Hasta luego. Mañana nos veremos.
Hoy tengo muchas batallas que vencer. Hoy tengo muchas sombras
que herir y terminar.
Hoy no puedo estar contigo,
debo cumplir mi obligación de luz:
ir y venir por las calles,
las casas y los hombres
destruyendo la oscuridad.
Yo debo repartirme hasta que todo sea día,
hasta que todo sea claridad
y alegría en la tierra.
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