Entre o Natal e o Dia das Crianças

Olhar entediado de Morena.

Para fugir das conversas sobre telenovelas e filmes ruins, ela se afasta rumo ao terraço da casa e finge ler uma revista desinteressante.

Rapaz alto de cabelos compridos e olhar sossegado se aproxima, arrastando uma atmosfera (não era só um bafo) de cerveja.

Rapaz, com um sorriso puro e feliz – Oi, Morena!

Morena, tentando sacar um sorriso do fundo do baú do tédio – Falaí, Kito. Beleza?

Rapaz – Tudo bom, tranqüilo. Tempão que eu não te vejo.

Morena – Pois é!

Rapaz – Tem visto o Rafa?

Morena – Estive com ele esses dias. Deve estar trabalhando agora. Trabalha muito, aquele ali.

Rapaz – O Rafa, cara, pô... vou te falar... olha, eu pego onda desde moleque... pego onda há vinte e cinco anos! No Natal do ano passado a gente foi junto pegar onda em Itacoatiara, lembra? Pois é... naquele dia ele me ensinou uma coisa sobre o melhor jeito de pegar onda... eu prestei atenção e desde então eu só pego onda do jeito que ele me falou. Cara, e eu tô pegando onda bem melhor, bem melhor mesmo!

Morena – Que legal, cara.

Rapaz – Incrível. Impressionante.

Morena, agora com um sorriso autêntico – É, aquele Natal foi bem bacana, eu lembro da gente lá em Itacoá.

Rapaz – Lembra? Pois é. Eu também, não esqueci e acho que nem vou esquecer nunca.

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Morena, pensativa, entorna cachaça na canequinha metálica do Rafa.

Morena – Cara, eu ia te falar uma coisa interessante que aconteceu. Encontrei o Kito hoje num almoço de família.

Rafa, engolindo quase todo o conteúdo da canequinha – O Kito?

Morena – Não lembra do Kito?

Rafa, franzindo a testa – Lembro desse nome, assim, vagamente. Acho que conheci alguém com esse nome. Mas quem é Kito mesmo?

Morena – Pô, Kito, cara... alto, cabelo comprido, sempre sorrindo, calminho... lembra?

Rafa, desfranzindo – Ah, sim, lembrei.

Morena – Ele falou uma coisa bonita sobre você. Falou do Natal passado quando a gente foi juntos a Itacoatiara, eu, você e ele. Não lembra não?

Rafa – Itacoatiara? Lembrei! Eu fiquei só um pouco na água, tava batendo muito, e ele ficou horas, e eu pensei: Esse cara é meu ídolo.

Morena – Pois é. Ele nunca esqueceu aquele dia. E sabe por que? Ele me falou assim: “O Rafa me falou uma coisa sobre o melhor jeito de pegar onda... eu prestei atenção no que ele me falou e desde então eu só pego onda do jeito que ele me mostrou. Cara, e eu tô pegando onda bem melhor”.

Rafa, quase gritando – Eu? Eu falei alguma coisa pra ele naquele dia? Eu não falei nada! Fiquei cinco minutos na água e fui embora. O mar tava grande que nem o inferno; achei que ia morrer naquelas ondas. Ele deve ter fumado um quando saiu do mar e se confundiu. Foi outro cara que falou com ele. Não fui eu.

Morena – Como assim, Rafa? Quantas pessoas foram juntas pra Itacoá naquele dia? Pensa bem. Não lembra?

Rafa – Sei lá!

Morena – O Kito, você e eu, Rafa. Só nós três. Ninguém mais quis ir porque todo mundo estava ruminando a ceia do Natal, chapados nos sofás como lesmas num muro. Só nós três fomos. Ninguém estava com carro, resolvemos ir mesmo assim. Pegamos uma porra dum ônibus lento que nem o cacete. Não lembra? É possível que você não lembre nada disso?

Rafa – Lembro, lembro sim. Mas eu não falei nada com ele sobre o jeito certo de pegar onda, cara. Tenho certeza. Ele pega onda melhor e há mais tempo do que eu! Ele explicou exatamente o que eu disse que foi tão importante assim?

Morena – Não deu detalhes. Estava assim meio emocionado.

Rafa, num tom de voz muito objetivo – E no fim das contas ele ainda tá namorando a Silvinha?

Morena – Não, terminaram...

Rafa – Ah, então ela tá sozinha na pista?

Morena – Não, eles terminaram mas continuam ficando juntos.

Olhar entediado do Rafa.

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