Entre a escola e o fim do ladeirão, mais para o lado da calçada, encontrei uma folha de papel, inteira porém muito suja e amassada, e nela havia um texto com letras grandes escritas numa caneta grossa, azul. Era cedo; tinha chovido na madrugada e o asfalto ainda estava um pouco úmido; vi as marcas das gotas de chuva no papel e a tinta meio borrada. Tudo me pareceu um pouco amorfo, uma mensagem sem começo nem fim; achei triste imaginar que o destino final de uma expectativa tão intensa seria apenas o asfalto de uma rua meio quieta onde crianças viajam conformadas rumo a mais um dia de tédio escolar. Imaginei que talvez na próxima meia hora um poodle qualquer deixasse uma lembrança indesejável em cima do papel, sem a menor cerimônia, e as palavras estariam perdidas pra sempre. Elas já estão perdidas, eu sei, mas às vezes me sinto como uma velha enfermeira de palavras em estado terminal, aquela que chora e se empolga e não resiste à oportunidade de aumentar-lhes a sobrevida.
"Então, para quando você chegar, eu parei de beber. Não sei explicar a você por que eu gostava tanto de beber - coisa sem graça, boba, que eu fazia sozinha ouvindo música, em casa, com dor de cotovelo, ou no balcão do bar do argentino, ele sempre sorridente, e eu saboreando a cerveja bem gelada, olhando os músicos e os casais. E com os amigos, aquela falação toda. Sempre os mesmos assuntos e a mesma dor de cabeça e de vez em quando brigas e logo depois arrependimentos, como dizer a você? Sinto por você uma ternura e ao mesmo tempo tento pensar nas questões práticas. Como e onde vamos ficar e o que posso mudar em mim mesma para cuidar melhor de você. Espero que você goste de subir comigo a ladeira até o mirante no fim da tarde e de lá olhar a cidade, a luz que apaga e a luz que acende. Não vou dizer a você quem as pessoas são. Vou dizer os nomes e deixar que você descubra o amor que tem no coração delas. Eu fico desgostosa demais pensando que você não veio até hoje, não tenho nenhuma notícia. Talvez você apareça logo, talvez nunca! Esse pensamento é como uma facada, um gelo descendo garganta abaixo. É como se o mundo tivesse me esquecido e eu fosse a sombra de alguém que não viveu de verdade. Olho para sua ausência e ela às vezes é delicada, outras vezes é triste e não me poupa nunca porque está em toda parte. Se eu algum dia souber o que fazer pra que você venha rápido não se preocupe eu vou fazer. Cortar de cabelo ou mudar de nome ou largar o emprego ou dizer a todo mundo que sinto sua falta e sem você eu não estou inteira aqui? A quem eu posso mostrar esse coração"
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Um comentário:
Só vc pra reparar em papelzinho largado no chão em dia de chuva!...
bonito que lembrou aquela banquinha de cartas do filme central do brasil...
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