... tá, tá, tá...

... tá, tá, dessa vez o lugar era isolado mesmo e frio pra diabo e a gente caminhou por horas sem muito rumo, furando neblina e respirando chuva. E quando finalmente chegamos na casa, o cheiro de mofo nos recebeu com violência. E depois de instalados num dos quartos, desembrulhando o fogareiro e outros apetrechos de cozinha, ouvimos aquele ronco prolongado que não podia ser nada de bom.

MORENA: O que foi isso? Foi o teu celular?

RAFA: Tá maluca? Desliguei há um tempão. Deve ser o teu.

MORENA: Não é mesmo!

Um ronco enfastiado, preguiçoso, despreocupado, que nos deixou reféns da obrigação de investigar quem mais ocupava a casa além do mofo e dos recém-encharcados.

Tá, tinha um cachorro do mato instalado na curva do velho fogão a lenha, chupando o calor que em outras épocas crepitou ali, e eu nem quero lembrar da hora em que ele arreganhou olhos e dentes pra nós.

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... tá, pra piorar tudo decidimos aproveitar a pausa na chuva e andar até a vendinha que ficava a oito quilômetros, em parte pelo gosto de passar embaixo de umas casuarinas e araucárias conhecendo os nomes e os orvalhos delas, em parte porque precisávamos de combustível para a velha lareira. E ao chegar à venda só o que achamos foi cachaça (hã???), uns biscoitos de polvilho e pedacinhos de alfenim, aquele derivado da rapadura que não leva a nada - aliás, te leva a uma hipoglicemia, e foi o que me aconteceu, quatro quilômetros depois. Ataquei enfurecida os moranguinhos da beira da estrada e lá pelo décimo-quarto quilômetro descobrimos que tínhamos nos tornado atrações turísticas.

O carro já tinha passado por nós antes umas duas vezes e na terceira foi provocação demais à curiosidade de seus ocupantes, três senhoras risonhas no banco de trás, uma senhora pequena e de óculos e um gringo gorducho nos bancos da frente.

SENHORA AO VOLANTE: Vocês andam muito, não é?

MORENA, dá uma olhada na placa do veículo e lê: SP - São Paulo. Só então dá um suspiro e responde: Pois é!

SENHOR GRINGO DO BANCO DA FRENTE: Mas vocês moram aqui?

RAFA, irritado, para MORENA: Qual é a deles? Tão pensando que a gente é atração local, tipo fauna endêmica, alguma coisa assim?

MORENA, em voz baixa, para RAFA: Psiu, deixa, vamos interpretar pra eles. São paulistas. - Vira-se para o gringo e responde: A gente resolveu ir à venda. Só que a venda fica a oito quilômetros da casa onde a gente tá. Então a vida é isso, né? A gente anda o dia inteiro.

RAFA: E preservamos o meio ambiente. Pegada ecológica zero, saca? Fazendo tudo caminhando!

SENHORA AO VOLANTE, com um sorriso maternal de aprovação: Fazem muito bem, por isso estão magrinhos assim.

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... tá, no fim da tarde minha aparelhagem interna protestou contra a indesejável mistura de rapadura, moranguinhos silvestres e atum em lata. Quando consegui abandonar a companhia do vaso sanitário, fomos pedir ajuda na casa do nosso VIZINHO 1. Angariei umas folhas de goiabeira para fazer chá e RAFA foi brindado com alguns pinhões assados e um belo café.

Nosso VIZINHO 1 é grande como um guarda-roupa colonial e tem olhos argutos, mistura de alemão com índio. Guarda florestal. Enfrenta caçadores e palmiteiros com facão e negociação - em doses idênticas. Mexe no fogo, dispensa os galhos úmidos com um resmungo de desprezo. Apaga as brasas com as palmas das mãos. Chuck Norris da roça!

RAFA: Maluco, tu apaga fogo com a mão???

VIZINHO 1: Mão? Isso aqui já virou casco!

E no dia seguinte acabamos na casa do VIZINHO 2. O VIZINHO 2 é primo do VIZINHO 1 e ambos são fluentes na linguagem da cachaça e da fofoca benigna (cada um dedura a barbárie do outro, mas ambos se adoram). O VIZINHO 2 nos conta que a adorável mulher do VIZINHO 1 ensinou a papagaia a dançar funk. TCHÁ-TCHI-TCHUM, levanta uma asa. TCHÁ-TCHI-TCHUM, levanta outra asa. TCHÁ-TCHI-TCHUM, levanta a cauda. TCHÁ-TCHI-TCHUM, abaixa a cauda. O interessante aprendizado sofreu uma interrupção dramática quando a papagaia saiu espatifada do encontro com um cachorro. E havia outra papagaia, que roubava brincos com orelha e tudo. Foi exterminada por uma coruja. Aqui ninguém precisa assinar Discovery Channel.

RAFA: Cara, e ele apaga fogo com a mão, cê já viu? Muito doido!

VIZINHO 2: Isso não é nada. Se beber uma cachacinha ele faz pior. Ele bate na brasa com a mão e apaga o tição com a língua! E quer saber mais? Quando ele tá assim, se passar um sapo ele sai correndo atrás, dizendo que vai beijar o sapo.

Ao saber dos nossos planos de esticar a conversa num cantinho mais animado, provavelmente o povoado a uns tantos quilômetros dali, a mulher do VIZINHO 2 quis externar sua opinião.

Conversávamos num velho banco de carro instalado no alpendre. Os berros vieram dos fundos da casa e ecoaram por uns oitocentos hectares de montanhas, fazendo tremer casuarinas e araucárias, agora já sem orvalho nenhum.

MULHER DO VIZINHO 2: Vai sair, é??? Se chegar aqui bêbado vai ter confusão, hein? Quinze minutos! Tá me ouvindo? QUINZE MINUTOS!!!

VIZINHO 2: ... tá, tá, tá...

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