Mais uma carona na roça

SENHOR DE BIGODES BRANCOS: Bom dia, vou até a fazenda, serve?

MORENA: Serve sim! Bom dia, eu tô indo até o primeiro condomínio, logo antes da ponte. Puxa, obrigada, eu aqui cheia de sacolas...

SENHOR DE BIGODES BRANCOS: Podendo ajudar a gente sempre ajuda.

MORENA, acomodando-se no banco traseiro do Fusquinha surrado, já que o banco do carona parece ter sido removido pra dar espaço a coisas mais úteis – Me chamo Morena, o senhor?

SENHOR DE BIGODES BRANCOS: Francisco de Assis Cipriano. Tá vendo essa fazenda aí? É uma das que eu tomo conta. Tô indo agora pra outra. Tomo conta de quatro fazendas. Seiscentos animais, nenhum deles me incomoda. O que incomoda é o ser humano.

MORENA: Inevitável! E o senhor mora onde?

SENHOR DE BIGODES BRANCOS: Moro no mundo.

MORENA, com cara de interrogação.

SENHOR DE BIGODES BRANCOS: Moro no mundo, moça. O céu é meu teto, a Terra é minha pátria. Sou de Minas, mas não moro mais lá faz tempo. Eu vou vivendo... nós aqui vai vivendo, levando nossas dificuldades. Só o que a gente fica meio assustado é com a morte, né?

MORENA, com cara de compreensão.

SENHOR DE BIGODES BRANCOS: Mas é fácil saber por que ela assusta nós, né? Por que? A senhora sabe?

MORENA, com cara de expectativa pela resposta que promete ser engenhosa.

SENHOR DE BIGODES BRANCOS: Porque dela ninguém nunca voltou. Então é claro que a gente fica assustado, né? Se você vai e nunca mais volta é porque tem alguma coisa esquisita lá.

MORENA: Faz sentido. Quando alguém vai fazer compras no mercado, em geral volta. Quando alguém vai trabalhar na fazenda, como é o caso do senhor, sempre volta. As crianças vão pra escola de manhã e de tarde voltam. Você vai ao boteco beber umas, volta meio torto mas volta. A gente tá acostumada a voltar.

SENHOR DE BIGODES BRANCOS: Isso aí, moça, você entendeu (diminui a velocidade em frente a uma casa de fazenda, cercada de vacas e bezerros). Chegamos, é aqui que eu durmo, guardo minhas coisas e as ferramentas da fazenda. Aqui tá bom?

MORENA, avaliando a casa antiga, bonita e bem pintada, e pensando que enfim não é tão mau negócio morar no mundo tendo o céu como teto: Tá ótimo! Só vou precisar andar um pedaço pequeno. Muito obrigada!

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