... em frente à praça apinhada de foliões fantasiados, egressos de um bloco de Carnaval.
Uma ODALISCA baixinha e uma COLEGIAL ossuda mergulham suas colheres na mesma tigela de açaí e parecem indiferentes ao tumulto e à febre de cerveja e caipirinha.
Três JOVENZINHAS entram com ar aflito e saltitando em shortinhos. Elas gritam pelo ATENDENTE, que se aproxima com ar de quem não quer se comprometer.
JOVENZINHA 1: Moço, moço, por favor me deixa usar o banheiro!
JOVENZINHA 2: Pelo amor de Deus, moço, a gente compra um salgado. Ou dois salgados, sei lá.
ATENDENTE: Banheiro só pros funcionários. Ordem do patrão.
JOVENZINHA 3: Meu Deus, não é possível! Eu tô aqui desde quatro da tarde! Eu não tô agüentando mais!
ATENDENTE: Se liberar pra um, vai ter que liberar pra todo mundo. Não tem jeito. Ordem do patrão.
As JOVENZINHAS se afastam aos prantos.
A ODALISCA suspira.
ODALISCA: Pouca prática. Pouca experiência.
COLEGIAL: É. Lembro de uns carnavais em Olinda (faz um ar nostálgico). A gente descia a ladeira procurando um caminhão estacionado, todas as meninas procurando. Cadê o caminhão? Se uma achasse, ficava fácil. Iam todas mijar atrás do caminhão.
ODALISCA, severa: Pelo amor de Deus. Ridículo fazer esse drama. Pega um guardanapo e vai em qualquer cantinho. Cansei de fazer isso.
COLEGIAL: Mas é uma vergonha não terem colocado banheiros nessa praça.
ODALISCA: É o fim!
COLEGIAL: Prometi pra mim mesma que não mijo mais em público. Te contei o que aconteceu outro dia?
ODALISCA: Não.
COLEGIAL: O Chico Buarque me viu mijando!
ODALISCA, deixa cair o queixo e fica sem voz.
COLEGIAL: Eu sei. E o pior é que eu podia ter ido ao banheiro. Eu estava caminhando no parque já há algumas horas, curtindo o ar, vendo as árvores. De repente me deu uma preguiça danada de ir ao banheiro. Não tinha ninguém lá, era um dia nublado. Eu tinha lenço de papel na bolsa, então me escondi atrás de um caramanchão e mijei ali mesmo. Pois no meio do xixi a coisa aconteceu. Chico Buarque chegando, meio suado, de camiseta e bermuda. Se ele estivesse devagar eu teria conseguido dar um jeito na situação, mas o danado estava quase correndo e não tive como interromper o processo.
ODALISCA: E o que você fez?
COLEGIAL: Virei a cara. Continuei. Ele viu tudo.
De repente, a ODALISCA começa a rir. Descontroladamente.
COLEGIAL: Que foi? Tá doida?
ODALISCA, sufocada pelo riso: É que eu me lembrei de uma coisa.
COLEGIAL: Lembrou? Lembrou de que?
ODALISCA: Caetano Veloso já me viu mijando.
COLEGIAL: Hã?? Como assim?
ODALISCA: Foi num show lotadaço. Colocaram banheiros químicos pra dar conta de todo o povo que estava lá. Eu estava apertada demais e fui no banheiro dos homens. Não tinha ninguém, todo mundo estava vendo o tal show. Só que a porta não fechava direito. Resolvi mijar assim mesmo, se é que se pode falar "resolvi" numa situação dessas. De repente o Caetano Veloso chegou e já ia abrindo a porta. Eu gritei: Só um momento! Ele olhou e pelo vão da porta me viu lá, mijando, com cara de idiota. Ficou esperando eu acabar. Saí de lá, pedi desculpas e ele entrou.
COLEGIAL: Maravilhoso! Temos algo muito profundo e muito importante em comum.
ODALISCA: Sem dúvida. Aliás, esse açaí abriu meu apetite. Vamos jantar no restaurante do outro lado da praça. O bolinho de bacalhau de lá é excelente e os banheiros também.
COLEGIAL: Beleza!
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