Fila de dez a doze pessoas na Receita Federal.
MORENA, a todos e a ninguém em especial: Meu Deus! Minha senha é COP. Estou aqui há meia hora e não chamaram nenhuma COP! Qual será o bendito problema?
RAPAZ GORDUCHO NA FRENTE DELA: E eu? Minha senha é CPJ e eu sou o número 2. Estou aqui há três horas e não me chamaram. Também não chamaram nenhum número 1. Ou então chamaram e ele morreu lá dentro.
SENHOR NEGRO E ALTO: Ah, então você é o 2? Eu sou o CPJ 3.
MORENA: Vai acabar meu horário de almoço e eu nem comi. Estou passando fome nessa fila.
SENHORA TINGIDA DE LOURO: Assim não dá. Também cheguei às 10 da manhã. Vamos falar com a gerente dessa droga. Não adianta reclamar com a pobre moça da Triagem porque ela está sozinha na roubada e não merece ser esculhambada.
RAPAZ GORDUCHO: Eu vou lá. Vamos já!
O RAPAZ e a SENHORA TINGIDA sobem as escadas rumo ao gabinete, enquanto MORENA e o SENHOR NEGRO E ALTO ficam vigiando o andar lentíssimo da fila para conferir se algum COP ou CPJ é chamado.
Dez minutos depois, os dois reaparecem.
SENHORA TINGIDA: Uma mulher lá fez uma cara muito triste, disse que o sistema está lento mas que ia ver o que podia fazer. Mandou a gente voltar aqui e esperar.
MORENA: Podiam desligar essa TV aí (aponta para a enorme tela pendurada num girovisão e que transmite em altos brados um relato detalhado da prisão de um estuprador, um sequestrador e dois ladrões de carros, com direito a apresentador inflamado revindicando que cada suposto criminoso seja no mínimo escalpelado, ou quase isso). Não ajuda em nada!
Quase imediatamente, brilham na telinha do display de senhas as letras CPJ e COP.
Todos comemoram com risos. O RAPAZ GORDUCHO entra na repartição, MORENA vai logo atrás.
Cada um ocupa o lugar de "cliente" em sua respectiva mesa de atendimento.
MORENA: Senhor, eu preciso de cópias desses documentos aqui (exibe o formulário que havia preenchido no setor de triagem). Eu preciso para levar ao meu trabalho porque lá eles exi...
FUNCIONÁRIO: Esperaí. Você é do sul?
MORENA dá o suspiro nervoso que antecede qualquer mentira.
MORENA: Sou, sim.
FUNCIONÁRIO: Eu sabia! Eu namorei quatro gaúchas e eu consigo reconhecer um sotaque do sul lá de longe!
MORENA: Bah! Que legal.
FUNCIONÁRIO, mexendo displicentemente no computador: Reconheço esse sotaque na briga, na hora do amor, de qualquer jeito! Olha, a mulher gaúcha é maravilhosa. Ela tem o seguinte (pega uma caneta e um bloco de rascunho e começa a escrever a lista de adjetivos à medida que vai falando): é decidida, inteligente, carinhosa, sentimentalmente frágil. Frágil quer dizer que ela sabe cuidar de si mesma, mas ao mesmo tempo precisa de um colo, entende? Ela quer dar, mas também quer receber um colo.
MORENA, simulando empolgação: Puxa, é isso, nós somos exatamente assim.
FUNCIONÁRIO, falando sem parar enquanto espera o sinal da impressora: Eu sei, eu sei, conheço bem. Agora vou te dizer uma coisa. Namorei muitas mulheres, de todos os Estados e sei te dizer que as melhores são as gaúchas. Não tem igual.
MORENA, aumentando a dose: Bah, mas por que não te mudas pra lá? É muito frio pra ti?
FUNCIONÁRIO: Muito, muito. O clima daqui é melhor. Mas uma gaúcha... não tem nada igual. Aqui estão as cópias que você pediu.
MORENA: Obrigada, obrigada.
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