Por uma rua quase invisível e muito discreta em sua glória eu segui e às 19h30 estava no mirante, bem na hora em que o sol deitou em sua cama de águas azuis: nós todos vivendo e morrendo em volta de uma baía de lamentos.
E vi esse homem subindo a ladeira, despejando suor por cima das pedras antigas, a mochila, a pele, um dourado escuro. E pensei que talvez fosse você. Perguntei algo sobre o desenho das pedras e aquela rua e esse homem, muito gentil, muito cansado, sorriu. Você também sorrirá assim quando nos encontrarmos, talvez com mais doçura, talvez.
Prossegui até o bar e entre os bêbados familiares e alguns hostis juntei as palhas do meu ninho. O Grande Mestre Violeiro apareceu; pediu pra sentar e eu pedi pra ficar abrigada entre as fibras de seu sorriso. De tudo que ouvi naquela noite em que quase te encontrei, brilham três das histórias enfeitadas do Mestre.
A PRIMEIRA:
"Havia um Violeiro muito bom mas muito mentiroso que contou um caso assim. Ele tinha fome, foi no mato caçar e pegou quatro jacus. Chegou em casa, quis botar o jacu na panela. O jacu não aceitou e derrubou a panela. Ele ficou brabo, mas o jacu derrubou o fogão, quebrou coisa na cozinha e ele teve que mandar o jacu embora. E quando ele contou isso tinha um outro Violeiro que era melhor ainda. Violeiro bom é muito mentiroso. Então esse outro Violeiro disse assim: Pior foi o que me aconteceu. Saí de casa e fui ao boteco. Cheguei lá, descansei, pedi uma. Quando estava entornando a dose senti alguma coisa mexendo em mim aqui (apontou a cintura, do lado direito), me cutucando. Eu me virei no susto. Era minha Viola que tinha me seguido. Você saiu sem mim, ela disse, se queixando."
A SEGUNDA:
"Eu não mando em ninguém, nem na minha Viola. Ela me morde quando eu ponho os dedos nela. Eu fui casado com mulheres muito finas, muito chiques. Eu tenho um amigo que diz sempre: Mas meu Grande Mestre, você ainda bebe cerveja em boteco? Ele acha que eu devia estar em casa bebendo vinho francês. Eu fui casado com uma mulher que me obrigava a cortar as unhas. Ela contratava uma pessoa pra aparar, polir e pintar minhas unhas. Toda semana eu tinha que passar por isso. Um dia a gente estava passando em frente ao boteco. Eu disse: Querida, você me dá licença? Vou ali falar com Zezinho do Cavaco. Vá andando, eu já te alcanço. Pois olha, já vai pra mais de vinte anos. Nunca voltei pra ela."
A TERCEIRA:
"Uma vez eu saí com uma mulher muito bonita, muito interessante. Saí com ela e não dei conta. Ela falou pra mim assim: Você brochou! Que bom! Abriu um armário grande cheio de bebidas boas e disse: Agora que você brochou, a gente pode ficar aqui os dois a noite toda bebendo e conversando!"
E assim terminou a expedição ao teu feudo. Afogue-se em pânico maravilhado e em expectativas. Estou cada vez mais perto e hoje vou lá de novo!
Nenhum comentário:
Postar um comentário