Natal com minha família

Desembarcamos na praça da cidade grande pouco depois de uma da manhã.

Largados na praça, com uma senhora baixinha e seu companheiro, todos com várias sacolas, fomos em busca de condução. Tinha lua cheia por cima da poeira onipresente e do cheiro de urina.

Dois meninos sem camisa; um deveria ter oito anos e o outro no máximo uns onze. Únicos vestígios de gente no deserto da pedra portuguesa, da estátua de bronze cor de musgo, das sombras dos prédios antigos.

MENINO 1: Tem um dinheirinho aí, umas moedinhas?

MENINO 2: É pra gente comprar comida.

SENHORA BAIXINHA: Dinheiro não, eu tenho um bolo; é um bolo de Natal muito gostoso.

MENINO 2 (aceitando a sacola oferecida): Obrigada, a gente tá com fome, dona.

MENINO 1: Num quero esse bolo não, vou jogar fora!

Enquanto nos afastávamos, a SENHORA BAIXINHA, irritada, deu algumas olhadas para ver se dispensariam mesmo o bolo. Mas vimos de relance que os dois se sentavam na rua mesmo e mastigavam com ânsia.

Atravessamos a praça. Montes de lixo embalados nas esquinas. Uma ratazana do tamanho do meu antebraço.

Na primeira avenida, nem sinal de ônibus. Na segunda, nos separamos. O casal seguiu caminho para a outra grande praça do centro. E nós decidimos vasculhar a avenida em busca de qualquer coisa motorizada.

Primeiro foi um homem magro, alto e grisalho que passou por nós, branco e com bom humor que não combinava com o cenário. Caminhou muito rápido e no caminho disse:

HOMEM MAGRO: Feliz Natal!

MORENA: Ótimo, pro... pro... pro senhor também.

Tinha um sotaque estrangeiro. Europeu.

Primeiro tentamos o ponto de ônibus. De mais de uma dezena de linhas disponíveis ali, apenas uma dirigia-se ao bairro que queríamos. Qual a chance, numa avenida deserta, de um ônibus exatamente daquela linha aparecer ali?

E veio uma senhora magra, bem-vestida numa saia e blusa novas, os cabelos bem penteados. Acho que qualquer um que viveu em cidade grande reconhece alguém que não tenha tomado banhos nos últimos três ou quatro dias. Ela não pertencia a esse grupo. E, meu Deus, falava sozinha sem parar. Falava, falava, falava, alto e numa voz estridente.

SENHORA MAGRA:... então você veio para cá tentar conseguir um táxi ou alguma coisa e fica aí esperando mas ainda não terminou, ouviu bem? Não terminou! Ele disse que qualquer coisa servia e que eu podia gritar à vontade, até alguém aparecer e me levar embora amarrada...

Não ouvi mais porque nós nos afastamos dali. Doía ver aquela pessoa sem ser cuidada por ninguém. Parecia ter parado no tempo, bem na hora em que alguma terrível violência foi cometida contra ela. E talvez nunca tivesse vivido além daquele momento. E quase no mesmo instante recordei o olhar furioso de um rapaz que sentou ao meu lado num ônibus velho de roça, há quase uma década. "O diabo está vivo nos computadores da polícia", repetia ele, me olhando com ferocidade, como se quisesse ter certeza de que eu lembraria daquilo depois. E eu lembro.

Avançamos um pouco e apontei para uma confluência de ruas maiores.

MORENA: Ali é perigoso pra caramba, já vi muita gente assaltando. Mas um pouco antes talvez a gente ache um táxi.

SENHOR SÉRIO: Tá falando comigo?!

Fiquei surpresa. Eu nem tinha me dado conta de sua presença, mas percebi que ao apontar a rua tinha quase enfiado o dedo em seu olho esquerdo, já que ele vinha se aproximando pelo meu flanco direito.

Era carrancudo, alto e sem alguns dos dentes mais visíveis.

E tinha sotaque estranqeiro. Sotaque de branco. Mais uma vez, o sotaque. De onde vinham aqueles homens e por que estavam vagando ali?

MORENA: Não, senhor. Eu só mostrei um lugar. Desculpe.

Quanta dor, quanto esquecimento.

E no táxi eu vinha pensando que a fuligem da rua e as luminárias glamurosas de Natal convivem numa distância mínima. Mas uma nunca sequer ouviu falar na outra.

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