"... sem nenhuma intenção de poesia."

Fiz algumas anotações nos três dias que passei sozinha no abrigo de montanha e as apresento aqui de forma mais ou menos aleatória.

* Andei seis quilômetros pra conseguir alguns mantimentos - iogurte, pão, duas latas de sardinha e bastante café. Nos últimos 40 metros, lembrei de ter esquecido os fósforos, o queijo e as pilhas do MP3.

* O cachorro da casa é velhinho e tem a aparência geral de um pano de chão largado num quintal, com a adesão de algumas camadas de poeira e mato. Imagino que sinta dores nas cadeiras porque geme muito quando se senta ou se deita. Ele me olha e uiva fino, porque estou num sofá quentinho enquanto o vento e a chuva fina castigam seus ossos.

* Levei mais de uma hora preparando uma consistente sopa de ervilhas, que o frio vai se encarregar de conservar nos próximos dias, já que não temos geladeira. O fogo eu acendi com uns isqueiros velhos. A cada refeição vou complementar a sopa com macarrão e legumes frescos. Os amáveis vizinhos ofereceram passe livre pela horta orgânica e desconfio que vou abusar.

* A sopa de ervilhas passou a noite no forno e na hora do almoço encontro um insetinho vivo, bem no meio dos grãos. Muito bem, eu não vou andar mais seis quilômetros inúteis por sua causa, insetinho arrogante. Tirei o bicho dali, dei uma boa fervura na sopa e me dispus a fingir que nada aconteceu.

* Na caminhada de hoje fui seguida por um lindo bezerro de pelo negro, que não desgrudava de mim uns olhos redondos e sujos. Aqui eles amarram estacas no pescoço desses bichinhos, o que torna ainda mais comovente a marcha deles sobre patas vacilantes. Chegou gente e me afastei, com medo de pensarem que estou afanando o bezerro. Duvido que alguém acredite quando eu disser: O bezerro me seguiu. Eu juro!

* Bastou uma soneca depois do almoço e o abrigo foi atacado por seres que inutilizaram um terço dos meus mantimentos. Como as janelas estavam fechadas, estou apostando numa ratazana que já vi por essas bandas. Os dois sacos de pão estão roídos e a panela de ervilhas foi destampada. Decido que mais meia hora de fervura resolverão o caso. Ainda bem que não comprei queijo.

* Deixei entrar o cachorro velho e seu provável séquito de carrapatos. Ninguém mais vai poder dizer que não tenho coração.

* Na procura por uma garrafa PET velha ou um cantil, acabo encontrando um copo de plástico rígido. Oba! Vai servir pra beber água das nascentes que tenho visto durante as longas caminhadas. O problema é que, depois de beber várias vezes, tive a idéia idiota de olhar para o fundo do copo e vi que ele tem manchas de tinta de cores diversas. Lembrei que o dono do abrigo é artista plástico. Jesus! Como uma pessoa como eu ainda está viva?

* Caiu a noite e estou solitária e melancólica. Pizzas? Amigos? Garrafas de vinho? Difícil dizer o que está mais distante nesse momento. Um pensamento desenha-se na neblina das lembranças tristes: um livro. Preciso de um livro. Um dos quartos tem uma estante repleta deles e é pra lá que eu vou.

* A caminhada durou o dia inteiro e exijo o luxo de um banho quente. Penso em aquecer água no fogão, mas a única panela realmente grande já está sendo usada pra preparar macarrão. Assim que ele fica pronto, eu o escorro e lavo a panela; em seguida ponho bastante água pra esquentar.

* O banho foi maravilhoso, mas acho que eu devia ter lavado a panela com mais detergente e bombril. Estou cheirando a óleo de soja.

* Achei o livro e li tudo aquilo e foi como beber da taça dos seres sábios. Dissolvida a solidão, fui lá fora e dancei o quanto pude. Primeiro para as montanhas, a lua e as estrelas. Depois com as montanhas, a lua e as estrelas.

* Tem uma barata cascuda estacionada bem no lugar onde deixei a escova de dentes.

Um comentário:

Anônimo disse...

Você fez bem e se eu estivesse lá e encontrasse o tal bicho, mataria e comeria ele também.