Eis o livro que me transferiu de uma paisagem amarga para uma experiência de comunhão e vitalidade no texto anterior: A Arte de Se Salvar, de Nilton Bonder. Mais precisamente este trecho em que ele relembra momentos de desespero infantil, na praia, diante de ondas que lhe pareciam gigantescas:
"A sensação de não haver saída é produto da não-aceitação de nossa condição. Quando na praia [eu] nadava em direção à onda, o maior sofrimento, aquele que de melhor maneira expressava o desespero, era a incapacidade de aceitar o lugar, a situação em que me encontrava."
O livro é fruto da experiência do rabino em aconselhamento espiritual para pessoas à beira da morte.
E mais adiante tem um trecho radical:
"Quem não vive a sua vida potencial desregula os meios comunicantes entre vida e morte e despeja resíduos de morbidez e desespero entre os vivos.
(...)
Não podemos fazer nenhuma concessão que possa diminuir a responsabilidade de viver ou que venha a diluir o terror e a impureza associados a não viver."
Difícil concordar plenamente com isso. Os obstáculos são imensos. Se eu encontrar em meu caminho um ser oprimido, aterrorizado e que faz terríveis esforços apenas para se manter vivo e não sucumbir, eu não teria coragem de dizer: Vamos lá, viva sua vida potencial! Na verdade eu não saberia o que dizer e talvez só segurasse sua mão e rezasse em silêncio.
Mas o raciocínio é válido para muitos de nós. E além de válido é belo.
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