A cachorra do Chuck Norris

Já faz quatro ou cinco horas que ela nos segue na trilha.

Às vezes lidera a marcha e confiamos nela. Tem toda sem-cerimônia de quem conhece o caminho. Às vezes fica para trás e desaparece, cadê? sumiu? esqueceu de nós? E ela ressurge, tão ofegante e simpática quanto antes.

Quando chegamos a alguma praia, ela salta como um golfinho ensinado. Vai escavar um, três, cinco buracos. A gente descansa, ela escava. A gente mergulha na ilusão cristalina, ela escava. A gente cochila na sombra da amendoeira, ela escava. Quando investigamos o que afinal está por trás de tanta atividade, flagramos um duelo desigual entre ela e um caranguejinho albino. Desigual? Quase um massacre! Ela não quer devorar o valente caranguejinho, que se defende correndo pra todos os lados e expondo a unha. Começo a supor que tudo que ela quer é ver o bicho aflito e encurralado e que isso é pra ela uma diversão considerável.




A parada para almoço é mais longa e aproveitamos para alimentar nossa acompanhante com arroz, um pouco de pirão e pedaços de peixe. Musculosa e hiperativa como é, vai precisar de muita proteína.

Vai anoitecer; a trilha se fecha e andamos no lusco-fusco. É a hora da troca de turno entre os bichos do dia e os da noite. A mata produz um frenesi rápido; ela salta de novo e com um sprint de velocista olímpico some na vegetação.

Dorje diz, Se isso era a onça pintada, finalmente a terrível algoz dos caranguejos encontrou um adversário a altura.

Escutamos um barulho de patinhas correndo – evidências de luta? Estes e os sons macabros dos bugios vão deixando nossa noite com um certo ar de filme de terror. Quando paramos para beber água, ela reaparece e acerta o passo com a gente, abandonando um calango semimorto que vinha carregando na boca.

Finalmente encontramos um lar para ela.

Joana, uma querida amiga que já recolheu quatro ou cinco cães vagabundos que percorrem essas praias em busca de comida e, digamos, associações favoráveis. Aliás, dificilmente acharíamos uma mais favorável do que esta. Como nem sempre consegue atravessar o mato ou a baía e achar um veterinário por aqui, Joana vacina e dá remédios a todos os seus cães. Cada um deles tem uma história interessante, como a do mestiço de dog alemão, pretíssimo, que simplesmente não tolerava a presença de machos desconhecidos na mesma praia (que deve ter quase oitocentos metros!). Certa vez, saltou do segundo andar da casa para atacar um invasor. E não morreu.

JOANA, acariciando a cabeça de sua nova aquisição: Ela é uma gracinha! Dei vermífugo ontem. O perigo mesmo é que alguns pescadores por aqui envenenam os cachorros. Não sei por que. Dizem que já tem cachorro demais e têm medo de que peguem raiva.

EU: Põe coleira, de repente eles respeitam mais.

DORJE: Já colocou nome?

JOANA: Já. É Boazinha.

Boazinha, Boazinha... é... acho que vou passar algum tempo tentando associar o nome à pessoa.

2 comentários:

Anônimo disse...

"caranguejinho albino" não seria uma Maria Farinha?

Anônimo disse...

Teríamos de consultá-lo a respeito. Talvez ele prefira ser chamado de Brad Pitt.