O Caminho tem dois inícios possíveis e não está claro para nós qual será a melhor opção. Estamos discutindo o assunto neste dia nublado, caminhando em círculos no cais onde desembarcamos, e nos vemos diante de um senhor calvo, que antes de viver no mato já foi alguém com tez branca. Talvez muito branca.
Olhando bem, nós verificamos: primeiro, que ele é do tipo que exercita o humor regularmente e em doses fartas; segundo, que o tempo ainda não foi capaz de desbotar o azul de seus olhos; terceiro, que em sua infância a comida era produzida no toucinho e o café coado no caldo fresco da cana e a mandioca processada numa maravilhosa máquina caseira chamada casa-da-farinha, cujo desaparecimento pode ser considerado uma espécie de convite à fome.
Decidimos abordá-lo e pedir um conselho.
FDORJE: Senhor, pode me dar uma informação?
MORENA, que é a favor de abordagens diretas: O senhor pode tirar umas dúvidas nossas sobre a trilha, sobre o Caminho?
SENHOR SÁBIO: Dúvidas? Talvez, mas a senhora vai ter que me pagar. Digamos uns cem euros.
MORENA: Poderíamos fechar em cem vibrações positivas?
SENHOR SÁBIO: Ah, mas a jovem deveria saber que as coisas por aqui estão muito modificadas.
FDORJE: Pois é, eu nem acreditei quando cheguei... estive aqui há uns oito anos...
SENHOR SÁBIO: Então o senhor esteve aqui há oitenta anos? Eu já estava por aqui. Tenho cento e vinte anos e vou viver até os oitocentos anos. O que estava aqui antes de mim quase chegou a mil. Na minha família nós somos assim.
MORENA: Fantástico! Eu preciso muito do conselho de alguém de cento e vinte anos! Diga uma coisa, se o senhor fosse começar o Caminho hoje, iria pela parte mais difícil, pelo oeste, ou pela mais fácil, o leste?
SENHOR SÁBIO, respira devagar e pensa: Eu começaria pela mais difícil. Pelo caminho mais fechado. Pelo oeste. Você sabe que o Caminho pelo leste é muito fácil, né? Você segue isto aqui (aponta para o poste à nossa frente), o fio da luz. Segue o fio da luz sem parar e ele te leva em estradas abertas até bem perto de onde você quer ir.
MORENA: Entendi que não é isso que você recomenda. E também gostei de você falar em "fio de luz", e não "rede elétrica", o que seria mais preciso e infinitamente menos poético.
SENHOR SÁBIO: Vá pelo leste. Pelo caminho mais difícil e mais fechado. Faça isso hoje, enquanto você está jovem. Amanhã você estará mais velha.
MORENA, ajoelha-se no chão e beija a mão do VELHO SÁBIO: Lindo! Muito bom! Já entendi e vamos fazer como você mandou.
FDORJE: Claro! Era desse conselho que a gente precisava.
SENHOR SÁBIO, prossegue sem dar muita importância aos elogios: Nas estradas abertas vocês podem avançar à noite.
FDORJE: E aproveitar o dia para descansar, claro! Com certeza. Eu não consigo mais ler sem óculos, mas minha visão noturna ainda é boa.
SENHOR SÁBIO: Sobre essa questão, quero dar meu depoimento.
MORENA: Diga. O senhor enxerga bem, claro.
SENHOR SÁBIO: Enxergava muitíssimo bem. Com a idade a coisa foi piorando. O senhor sabe o que é um micüim?
FDORJE: Um mosquitinho minúsculo, do tamanho de uma cabeça de alfinete. A picada dá uma coceira danada. Sei sim.
SENHOR SÁBIO: Bem, digamos que piorou muito mas ainda tenho visão suficiente para acertar um tiro num micüim a uma distância razoável. No olho, claro.
MORENA: O que seria uma distância razoável?
SENHOR SÁBIO, aponta um conjunto de rochedos verdejantes no meio do mar, a uns dois mil metros.
MORENA: Perfeito. E suponho que se algum dia a gente quiser localizar o senhor, não vai ser pelo seu nome. Ninguém aqui se trata pelo nome. Então o senhor se incomoda de nos dizer como o senhor é conhecido?
SENHOR SÁBIO: Careca. Ruço. Lobisomem. Qualquer desses vai servir.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário