Mas neste país existe uma estrada em que, ao ver um pedestre, o motorista se vê obrigado a parar e oferecer carona. Obrigado? Como assim? Quem o obriga?
Ninguém, besta.
Ele desacelera e aborda o pedestre levado simplesmente por sentimentos ligados à solidariedade e ao cuidado com o outro. A cortesia. A empatia. Talvez o prazer de ter uma boa conversa. Se perguntássemos a eles, talvez nem entendessem. Como assim? Oferecemos carona porque esse é o costume. A subida é longa, não tem ônibus, e não nos custa nada ajudar alguém a poupar as pernas.

Certa vez subi essa bendita estrada sob um sol infernal.
Um senhor de bigodes brancos, que viajava numa pick-up velha ao lado de um rapaz moreno com ar entediado, parou assim que me viu.
SENHOR DE BIGODES BRANCOS: A moça vai pra onde?
MORENA: Segunda ponte (olha eu aqui dando dica!).
SENHOR DE BIGODES BRANCOS: Olha, moça, eu não vou pra lá não mas vou perto, vou entrar na rua da escola. A senhora economiza aí um quilômetro e meio, não quer?
MORENA: Claro que quero, nesse calor!
Outra vez, eu descendo, apressada e com medo de perder o ônibus. Passa um homem moreno e magro em seu fusquinha e pergunta se vou para a cidade. Quando confirmo, ele coça a cabeça com a expressão um pouco triste e responde:
HOMEM MORENO E MAGRO: Olha, filha, só não lhe dou carona porque não estou indo para aquele lado, senão eu lhe levava.
MORENA: Não tem problema. Descer a ladeira é mais fácil que subir.
Comento o assunto, maravilhada, com um amigo que mora por lá.
AMIGO: É assim: todas as vezes em que passo a pé alguém quer me levar. E se não puder me levar, pelo menos pára um pouquinho para se desculpar e reforçar o vínculo. Chato mesmo é sair daqui e ter que reaprender a desconfiar de todo mundo.
Um comentário:
Adorei essa historinha. E mais importante do que saber onde fica essa estrada é construí-la em qualquer lugar!!!
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