MORENA - Então você vai entrar de férias e viajar. Que bacana!
MONGE - Não sei, eu me sinto mais relaxado aqui no Rio do que quando volto para casa. Aqui tenho quase que todo o tempo para meditar, ler, dar ensinamentos. Em casa tenho que ver a família, dar atenção a todo mundo, e não sobra muito tempo. Dessa vez vai acontecer o casamento do meu irmão, que eu vou celebrar. Isso é uma coisa meio estranha, pois monges normalmente não celebram casamentos. E vamos ter uma reunião familiar grande para comemorar os oitenta anos do meu pai.
MORENA - Ótimo, vai ser bom pra eles. Sentem muito sua falta, não?
MONGE - Sim, mas o que acontece é que conversamos intensamente no início e depois de uma semana já não temos o que falar um para o outro.
MORENA - Entendo. Comigo acontece o mesmo. Poucos interesses em comum; o assunto acaba rápido. Sabe, estou lendo o livro de um grande lama do Butão. Ele diz que uma família é como uma hospedaria em que diferentes hóspedes, com diferentes interesses, permaneceram por algum tempo e depois partiram. Impressionante, é exatamente o que eu sinto.
MONGE - Sabe, a relação com o mestre é uma relação verdadeira, é a relação com alguém que está sempre com você, mesmo distante, e que tem um amor iluminado, incondicional por todos os seres. É alguém que não vai te abandonar. Mas as relações com a família não são assim. Com os pais é diferente; o pai e a mãe são como o mestre, de uma certa maneira, e eu procuro sempre estar com eles de alguma forma. Com as outras pessoas, é isso aí: a hospedaria. Diferentes hóspedes em diferentes épocas.
MORENA - E começamos a sentir compaixão por eles. Eu nunca consegui experimentar compaixão. É algo teórico pra mim, essa compaixão de que os lamas falam. Eu fico me perguntando o que isso quer dizer. Eu consigo sentir pena ou tristeza por alguém que está sofrendo.
MONGE - Qualquer pessoa pode sentir amor e compaixão, mesmo que por poucos instantes.
MORENA - E esse sentimento pode ser estabilizado?
MONGE - Sim, mas acho que estabilizar não é o mais importante no começo. Você pode meditar e pode rezar e pedir ao guru, mas se sentir compaixão por algum tempo, algumas vezes, isso já vai produzir muitos méritos. É bom ser humilde e reconhecer sua situação, mas você não deve se degradar pensando, Ah, eu nunca vou ser capaz de sentir isso.
MORENA - É, muitas vezes eu penso assim.
MONGE - Não deve. Uma coisa é a humildade; outra coisa é uma auto-estima baixa, que nos faz subestimar as nossas possibilidades.
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