DONA DA VENDA – Dez pras nove.
MORENA – Obrigada. A senhora tem uma água mineral? E posso esperar o ônibus sentada aqui?
DONA DA VENDA – Claro, fica a vontade, vou trazer a água.
MORENA, respira fundo, pousa o traseiro e as duas mochilas na cadeira de plástico e se vê diante de uma espera de pouco mais de meia hora.
A DONA DA VENDA traz a água.
MORENA pensa na palavra ônibus e lembra do primeiro verso de uma musiquinha melosa que aprendeu com algum amigo em algum momento deprê e nunca mais esqueceu. O verso é assim: "Alone in the crowd on a bus after work and I am dreaming..."
MORENA comeca a cantarolar – "The guy next to me has a girl in his arms my arms are empty how does it feel when the girl next to you says she loves you…" uuuuuuuuuuu… uuuuuuuuuu…
DONA DA VENDA – Ah, meu Deus, como é difícil lidar com gente teimosa!
MORENA, surpreendida – Hein?
DONA DA VENDA – O meu marido. Todo dia de manhã ele sai pra comprar pão e ele compra cem pães. E todo dia sobram cinqüenta pães. Eu já disse a ele, moça, Fernando, não precisa comprar tanto pão. A gente ganha vinte e cinco centavos em cima de cada pão. Mesmo vendo o prejuízo dentro da cara dele, ele não fala nada. Teimoso! Teimoso!
MORENA ri, depois fica um pouco sem graça. Nem todo mundo acha que rir pode ser uma manifestação de solidariedade.
DONA DA VENDA, prossegue sem se incomodar com a risada – Agora mesmo o Sassá saiu daqui pra levar o pão que sobrou pra tratar dos porcos da vizinha. Porque o que sobra a gente dá pros porcos. Só que é muito pros nossos porcos, que são só três leitõezinhos. Então eu pedi pra ele levar pra tratar dos porcos da vizinha. Mas já se viu isso? Comprar pão pra tratar de porco? Que homem teimoso! Você é casada?
MORENA – Não.
DONA DA VENDA – Então não case não, viu, moça. Porque eu tenho 32 anos de casada e não consigo entender o meu marido! Eu só continuo com ele porque tenho três filhos, sabe, dois já casados e um de quinze anos, e tenho netos. E quero dar um respeito pra minhas noras, pros meus netos. Mas pelo meu marido não. Porque homem você encontra em tudo que é lugar, viu, moça? Homem tem por toda parte.
MORENA, sorrindo - Ainda bem, né?
DONA DA VENDA - Tem em qualquer lugar. É a coisa mais fácil. Agora marido pra lavar cuecas, Deus me livre.
MORENA, tenta disfarçar a vontade de rir com uma mudança brusca de assunto – A senhora é daqui mesmo?
DONA DA VENDA – Eu moro aqui há 14 anos, mas eu sou de Bom Jardim, de Barra Alegre.
MORENA – Ah, eu estive lá esse ano, no Carnaval. Puxa, a senhora fez bem em se mudar, aqui é muito melhor. Barra Alegre é muito vazio, quase todo mundo foi embora de lá.
DONA DA VENDA – A senhora acha? Eu saí de la com 20 anos, quando me casei. Fomos pra Campos. A gente trabalhava em fazenda. A gente trabalhava de empregados, fazia as coisas pro patrão, cuidava do gado, dos animais. Então a gente soube que tinha esse ponto aqui e a gente resolveu botar comércio. Eu moro aqui em cima mesmo, em cima da venda. De domingo a domingo eu trabalho aqui.
Um senhor de uns sessenta anos, de ar pacato, com bigode e grandes espaços entre os dentes chega na venda e atravessa o balcão. Tem duas laranjas na mão.
A DONA DA VENDA dirige-se a ele.
DONA DA VENDA – Então, Sassá, levou o pão pros leitões?
SASSÁ – Levei mas não devia não porque um cachorro me deu uma corrida.
DONA DA VENDA, derramando uma dose de cachaça num copo – E mesmo, Sassá?
SASSÁ – Levei um susto danado! Veio em cima de mim e eu saí correndo.
MORENA, tentando descaradamente se reenturmar – Que perigo!
SASSÁ, bebendo a cachaça toda de uma vez – Quase me pegou.
DONA DA VENDA – Agora você vê... a gente compra o pão por 25 centavos e vende por 50... e todo dia sobram 50 pães... o que a gente ganha aqui não está dando pra pagar a padaria!
SASSÁ, mostrando a MORENA uma das laranjas, que acaba de cortar – Você já viu uma marca dessa de laranja?
MORENA – Não. Por fora nem parece uma laranja. Parece um limão galego.
SASSÁ – Ela é toda vermelha por dentro.
MORENA – Diferente.
DONA DA VENDA – Quando ela tá madura fica vermelha como sangue por dentro. Leva uma, moça, leva pra mostrar pro pessoal lá do seu lugar.

MORENA – Puxa, obrigada, vou mostrar sim.
SASSÁ – Já vou indo então.
DONA DA VENDA – Obrigada, viu, Sassá?
SASSÁ dá a volta no balcão e se retira arrastando a velha bicicleta pela rua.
Duas casas adiante, ele encosta a bicicleta e fica parado, chupando a laranja que é vermelha por dentro.
DONA DA VENDA, para MORENA – Você me dá licença, moça?
MORENA – Claro, obrigada.
A DONA DA VENDA se afasta.
MORENA retoma sua musiquinha chorosa e olha com distraída simpatia para Sassá. Por alguma razão ela tem certeza de que na escola primária ele tinha sido o garoto de quem todos caçoavam.
De repente o ruído de uma motocicleta cresce mais do que o necessário pra uma rua tão sonolenta.
O MOTOQUEIRO vem descendo a rua e faz seu rumo bem nos bigodes do Sassá, que se assusta e dá um salto improvisado, meio sem direção.
O MOTOQUEIRO desvia no último instante e dá uma risada.
MOTOQUEIRO, vai gritando a medida que se afasta - Qual é, véio??? Vou passar por cima, hein?!
MORENA, para si mesma - Ah, era só brincadeira. Gozação. Tadinho, todo mundo zoa ele.
Depois de uma breve paradinha no quebra-mola para gritar bobagens, o MOTOQUEIRO some na curva da rua.
MORENA sorri, aliviada, quando vê que seu personagem preferido está são e salvo.
SASSÁ, em tom de desabafo ofegante – Quando não é cachorro é moto!
2 comentários:
Puxa, vcs não mostraram a laranja por dentro!
Tá valendo qualquer coisa para mim...
Homem, marido, namorado, amante...
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