"Depois da Guerra Fria nunca mais fizeram filmes bons", disse a minha mãe, que tem 72 anos, enquanto víamos a palpitante seqüência inicial de "Viagem Fantástica". Perseguição de carros, tiros, eletrodos no cérebro, muita tensão e de repente um cara anuncia, como se fosse a coisa mais corriqueira do mundo, que um time de cirurgiões será miniaturizado para penetrar na corrente sangüínea do velho cientista. Tudo para impedir que "o outro lado", os russos, tivessem acesso aos segredos armazenados na consciência do homem.
Mais um diálogo entreouvido. Na trilha do Pão de Açúcar.
CARA 1 - Ela toma antidepressivos.
CARA 2 - Na semana passada ela me contou que teve coma alcoólico...
CARA 1 - Pois é, ela toma esses antidepressivos, mas saiu e bebeu cinco tequilas.
CARA 2 - Sem noção.
CARA 1 - É, sem noção.
CARA 2 - Por isso que você tem que ficar sempre perto dela. Pra ajudar.
CARA 1 - Que se foda, ela não quer ser ajudada.
CARA 2 - Mas você tem que ficar perto. Faz teu papel de amigo.
CARA 1 - Agora ela quer se riscar toda, fazer tatuagem.
CARA 2 - Nada, deve ser algum desenho tribal, é maneiro.
CARA 1 - Não, é tipo um texto que ela vai escrever, um negócio oriental. Vai se riscar toda.
CARA 2 - Ah, isso é coisa de quem quer se transformar em outra pessoa. Tem que mandar tomar no cu.
(Não entendi. O objetivo de tudo não é que "ela" supere seus erros e realmente se transforme em outra pessoa? De alguma maneira a tuatuagem pareceu mais grave que as cinco tequilas. Embora a tuatuagem me parecesse uma luz de mudança no ser que antes afundava nas cinco tequilas. Ai, chega. Da próxima vez eu abandono a timidez e me meto na conversa, sem ter que voltar pra casa mastigando essas dúvidas.)
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