Balada do Mau Gênio
Mario Benedetti
Há dias em que sinto um desinteresse por mim, por ti,
por tudo o que insiste em crer em si mesmo
e então me faço solidariamente cretino,
apto para que em mim vacilem os rancores
e nada me pareça de bom augúrio.
Dias em que abro o jornal, com o coração na boca,
como se aguardasse, de verdade,
que meu nome fosse aparecer nos avisos fúnebres,
seguido dos pêsames de parentes, amigos
e de todo indócil pessoal que trabalha comigo.
Há dias que sequer são escuros,
dias em que perco o rastro de meu pesar
e resolvo as palavras cruzadas
com uma raiva feita para outras ocasiões:
digamos, por exemplo, para uma noite de insônia.
Dias em que um sabe que há muito tempo era tudo bom
bah! talvez não fizesse tanto tempo que saía a lua
limpa como um sabonete perfumado.
E aquilo sim era autêntica melancolia
e não esse insano aborrecimento... angústia.
Bem, esta balada é só para dizer-te que,
nestes dias, não me leves em conta.
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