Eu sou meu próprio guia

Sim, sim, as cataratas são lindas de ambos os lados.

Adorei ficar imaginando como os argentinos estão vendo a gente, do lado de lá. E olha só que bom, o temporal preferiu desabar só na hora em estávamos devorando sanduíches, bem protegidos pelo teto da lanchonete.

Mas isso é um parque. Estamos cercados de floresta belíssima, que eu gostaria de conhecer melhor. Para onde olho tem alguém oferecendo passeios de voadeira, helicóptero, jipe, carro elétrico, caiaque inflável, bicicleta... será que eu posso andar um pouquinho a pé mesmo, por conta própria, pra respirar mato? Sair discretamente deste asfalto quente e da multidão de ofertas para sentir um pouco a pulsação da floresta?

Um pouco de solidão e silêncio, sabe como é?

Não, não pode, diz o guia a quem peço informações sobre uma trilha que vi no mapa.

Aqui em todas as trilhas só se pode andar com guia, e pagando pelo passeio. A única trilha que você pode fazer sozinha é a que sai na passarela das cataratas.

Ah, sei. Mas esse "sozinha" aí é meio estranho porque na trilha das cataratas somos centenas de formiguinhas revezando-nos em filas, pilotando máquinas fotográficas diante do entardecer singelo do grande rio. Aliás, ali não é bem uma trilha, e sim um caminho turístico domesticado e a floresta é como uma onça de cabresto e olhos cansados.

Tudo bem, eu ando pelo asfalto da rodovia mesmo, deve ser essa a parte que me cabe neste latifúndio. Em momentos assim é difícil não lembrar de uma frase do roteiro de O Fabuloso Destino de Amelie Poulain, algo assim, "A vida anda difícil para os sonhadores".

Mas... na entrada da trilha das Bananeiras não tem ninguém. Algum funcionário deveria estar lá, cobrando bilhete, perguntando pelo guia. Não está. E isso é quase como um sinal verde escancarado para mim.

Entrei.

Sozinha!

É uma estradinha, não uma trilha. Perfumada de folhas úmidas, enfeitadas por graciosas borboletas. Dois quilômetros maravilhosos de sossego e reverência. Em certo momento estou tão relaxada que aumento o volume do MP3 com Prem Joshua e começo a andar dançando, brincando de ondular os braços. E assim chego até uma praia de rio.

Fim de linha. Uma satisfação pícara toma conta de mim e já estou voltando, driblando a lama.

Passa um jipe e pronuncio entredentes aquela palavra clássica que melhor expressa a sensação de uma surpresa desagradável: Fodeu!

Um rapaz de cavanhaque olha pra mim com incredulidade.

Você não está num grupo? Aqui não é permitido andar na trilha se não estiver num passeio com o grupo.

Respondo que já estava voltando.

Você veio até aqui sozinha, sem guia?

Bom, ele está pedindo uma explicação. Então vai ter que ouvi-la.

Olha, amigo, aqui é um parque e em todos os parques em que já fui nesse país é possível andar nas trilhas sem pagar passeio e guia. Mas eu já percebi que o esquema aqui é todo privatizado. Tudo bem, não tenho nenhuma intenção de criar problemas, nem de desrespeitar nada, por isso já tô voltando. De todo jeito, não vi essa informação escrita claramente em lugar nenhum. Acho que se alguém quisesse deixar as coisas bem claras era só escrever assim: NÃO ENTRE NESSA TRILHA SEM ANTES TER PAGO O PASSEIO OU CONTRATADO O GUIA. Mas ninguém lembrou de escrever. Além disso, não tinha ninguém na entrada desta trilha especificamente, por isso fui entrando.

O rapaz é simpático e talvez esteja considerando tudo que eu falei. Ou me achando uma doida. Sei lá. Talvez eles estejam certos e a gente deva mesmo ser obrigada a desembolsar cem, cento e trinta reais, que é o preço médio dos passeios por aqui. Afinal, os guias precisam dos empregos, as concessionárias precisam lucrar etc. Vamos, tentem me convencer. Argumentem que sai caro preservar o parque, embora eu tenha a vaga sensação de que os impostos que pagamos talvez devessem servir pra isso também. Além disso, a entrada custa doze reais e sessenta e cinco centavos para o Mercosul. Diante desse preço a maioria da população já torceria o nariz. Ah, mas alguém talvez tenha a idéia de alegar que trilha no mato não é coisa pro povão. Eles gostam é de pagode, forró ou show de música evangélica. E nesse momento eu desistiria de argumentar.

O rapaz dá um meio sorriso e finalmente nos libera a ambos de uma convivência que já estava ficando incômoda.

Tá bom, diz ele, mas se alguém te perguntar você fala que ninguém te viu. Pra não prejudicar os funcionários.

OK, respondo, e continuo meu trajeto com o Prem Joshua. E sem guia.

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