"Abra a porta e vá entrando/ felicidade vai brilhar no mundo"

Excelente conversa transgeracional: Tom, seu filho Paulo e eu.

O Paulo estuda aviação e quando fala no assunto transborda orgulho e atitude.

Perguntei sobre o acidente com o triste vôo da Gol, em outubro do ano passado.

- Os pilotos americanos do jato da Legacy estavam errados porque não seguiram o plano de vôo e foram para uma altitude diferente. O Brasil está errado porque não oferece controle total de todo o percurso e aquele trecho ali era mais ou menos como um buraco negro, em que ninguém consegue falar com ninguém. Num caso assim, só o que se pode fazer é aprender com os erros.

Perguntei sobre os controladores de vôo, que fizeram greve para dizer a todo mundo que são seres humanos, com responsabilidades gravíssimas nas mãos e demandas que, para eles, não estavam sendo atendidas; aliás, sequer consideradas.

- Agora todos serão civis. Vão ser funcionários comuns de uma empresa estatal que vai ser criada para isso, e não mais militares. Os atuais vão ter que deixar de ser militares e prestar concurso como servidores civis, se quiserem continuar a trabalhar como controladores. E vai haver mais contratações. A situação era terrível, pois a cada vôo você tinha 200 vidas nas mãos de duas pessoas, o piloto e o controlador, e se um dos dois falhasse todos morreriam. Imagine o estresse num momento desses.

Quando o Paulo era um bebezinho lindo, eu era uma adolescente com verdadeira obsessão por câmeras fotográficas. E o Tom era um fotógrafo premiado. Viajado. Incensado. Um anúncio no jornal Balcão de uma câmera semibásica à venda por um preço quase razoável para uma menina sem renda própria mobilizou minhas idéias por um bom tempo. O anúncio tinha sido colocado pelo Tom.

Consegui contagiar meu pai, único patrocinador possível para a aventura. Sobre este recém-chegado personagem, vale a pena dizer que tinha muitas histórias pra contar sobre grandes lentes acopladas a aviões monomotores que varriam territórios enormes Brasil a fora, inaugurando caminhos e roubando imagens como se fossem bandeirantes aéreos. E o meu pai decifrava o trabalho medonho que essas megacâmeras produziam e transformava tudo em cadastro territorial. Aerofotogrametria era o negócio dele.

Nosso único encontro aconteceu no apartamento do jovem Tom, com o Paulo choramingando em seu berço. Mexi na câmera, fascinada. Meu pai pechinchou. O Tom valorizou. Depois de um rápido "embate de vontades", a transação foi concluída e todos se consideraram satisfeitos.

Principalmente eu, que grudei na maquininha e saí registrando os detalhes íntimos do meu mundo, coisas que as palavras em meus diários não davam conta de retratar. O luar sobre a casa que freqüentávamos, em Búzios. A árvore solitária diante de uma praia esquecida, em Paquetá. As melancólicas travessias de barca. O povo nada melancólico da barca (pensando bem, quem era melancólico???).

Com pouco mais de cinco anos de idade, o Paulo começou a gostar de aviões. É um dos poucos casos que conheço de alguém que nunca mudou de idéia sobre qual profissão seguiria quando crescesse. Piloto aos 8. Piloto aos 10. Piloto aos 18.

Ele reconhece que poderá ter uma vida dura, que os riscos são consideráveis, a responsabilidade é assustadora e a remuneração não está à altura. Nada disso o abala. Ele segue seu caminho, com a determinação de uma flecha atirada pelo melhor arqueiro do rei. Ao fim do percurso, uma identidade, um surgir. E quando nos encontrarmos novamente, também eu surgirei. Num minhocão de aeroporto? Num próximo jantar, e quem sabe que novos assuntos discutiremos? Eu choramingando no berço, ele tentando barganhar um bom preço por uma câmera fotográfica que estava prestes a se tornar obsoleta. O Tom decifrando as intrigantes informações da aerofotogrametria. Meu pai choramingando no berço, eu explicando o funcionamento das enormes lentes acopladas aos aviões. O Paulo, um fotógrafo premiado e incensado, quebrando a cabeça para descobrir uma forma de pagar a faculdade de aviação da filha, uma menina que sonhava ser pilota.

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O mestre amável, a discípula ansiosa.
Não parecia haver acordo possível.

O MESTRE - Tsering-la, você precisa ter paciência.
A DISCÍPULA, quase aos gritos - Mas, afinal, o que é paciência?
O MESTRE - Paciência significa saber que haverá problemas.

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