
(Será que ela está procurando O Papel?)
Uma animada discussão sobre a prática de yoga. Como progredir? Devemos abandonar as posições que já dominamos? Com que velocidade? Um professor (fantástico, por sinal) dá o exemplo de um ásana que considera fácil e afirma que não o pratica mais, porque é muito simples.
Monica pede para falar.
“Acho que precisamos continuar a praticar os ásanas que consideramos simples. Na vida, temos o hábito de abandonar as coisas, assim que elas se tornam conhecidas para nós. Isso acontece nas nossas atividades e nas nossas relações também e não deveria, porque cada dia é diferente do outro. Se eu sou casada, a cada dia eu deveria olhar para o meu parceiro e entendê-lo naquele dia, e não a partir do que aconteceu no dia anterior. Quando eu cuido do meu altar, estou vivendo a experiência do dia. Precisamos viver o simples, honrar o simples.
Enfim, se não damos mais a devida atenção, aquilo que era simples se torna uma complicação mais adiante.”
:) :) :) :)
Já faz um tempão que estou a fim de falar dO Papel.
Antes de viajar, costumo pegar uma folha de papel e anotar os contatos de todo mundo que devo procurar e detalhes dos lugares onde preciso aparecer.
Surgiu o hábito de criar O Papel. A questão é que O Papel assume uma importância escandalosa quando eu me vejo solta num mundo de esquinas, comércios, mãos-e-contramãos e todos os perigos insondáveis dos lugares que a gente não conhece.
Perdeu O Papel, perdeu a última ferramenta de controle que me separa do caos total.
Eu pensava que se tratava de uma exclusividade da minha psique, desconfiada das supostas maravilhas dos disquetes, palmetopes e, recentemente, das encantadoras memórias de bolso. Mas pelo jeito nada mais pode ser inventado nesta nossa neurosfera.
Estiveram hospedados na casa do reveilão até o meio de janeiro. De vez em quando eu os ouvia falar nO Papel. O deles.
Amorzinho, pergunta Astrid. Cadê o telefone da Luzia?
Tá nO Papel, responde Eduardo.
Mas cadê O Papel?
Ah, tem que estar por aí, né? Em cima da mesa, lá no quarto.
Amorzinho. Não tô achando O Papel.
Ah, Amorzinho, a gente não pode perder O Papel. Todos os telefones tão lá. Procura direito.
Ela está na Índia, sozinha.
Acaba de chegar a uma dessas cidades grandes e esfumaçadas, entupidas de gente, sem falar no tempero dos riquixás e na sinfonia de buzinas. É de noite e ela precisa achar o ashram. Estão esperando por ela no ashram, ou seja, ultrapassada a fronteira do ambiente hostil, ela encontrará tranqüilidade, carinho, cama e comida.
O motorista do táxi não é muito bom no inglês. Ela não fala hindi.
Mas existe O Papel. Lá está o endereço do ashram, fora da cidade, com todos os detalhes de qual estrada pegar e quanto tempo demora para chegar. Animada, ela manda um Here, look, I want to go here e sacode O Papel diante do motorista.
Ele abre um sorriso e toma O Papel das mãos dela. Ele examina O Papel. Ele deixa cair O Papel.
(Ele deixa o queeeeeeeeeee...?)
O Papel sai voando na brisa da noite indiana.
Nem preciso acrescentar que O Papel contém todas as informações que ela usará até o fim da viagem. Nem preciso acrescentar que aquelas informações estão ali, nO Papel, e em nenhum outro lugar.
Ela grita no ouvido do motorista. O Papel saiu voando! O Papel! Volta e pega O Papel!
Não posso, madam. Aqui é uma estrada de mão dupla.
(Engraçado, quando estava tudo bem eles não se compreendiam e tiveram que apelar para a mediação dO Papel. Agora, na hora do aperto, estão se entendendo muito bem.)
Volta! Volta! Eu preciso dO Papel!
Voltam cento e oitenta graus, param o carro, fuçam a estrada na escuridão.
Acham O Papel. A viagem está salva.
Volta! Volta! Eu preciso dO Papel!
Voltam cento e oitenta graus, param o carro, fuçam a estrada na escuridão.
Acham O Papel. A viagem está salva.
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