Literatura sanitária, sim, por que não?

Pessoalmente, quando cumpro expediente no trono gosto de folhear o microatlas mundial que tem quase o formato de um passaporte e é bem didático. Este Ultimate Pocket World Atlas, da editora DK, me proporciona bons momentos de reflexão sobre vidas, paisagens, sentimentos, culuras que povoam este planeta. Fico também tentando descobrir os cantinhos em que os países se esbarram e porque acontecem ranhetices entre eles. Nesses cantinhos em que as fronteiras são imprecisas, o microatlas traz frases como ´Disputa entre Índia e China, sob o domínio chinês em 2001´. É parecido com o velhíssimo chavão do jornal impresso: até o fechamento desta edição não havia confirmação do fato tal.

Como recebo muitas visitas, procuro deixar diferentes tipos de literatura disponíveis nas redondezas do vaso. Quadrinhos de Neil Gaiman. Mix de revistas: National Geographic, Fluir, TPM, Bravo, Carta Capital. Uma edição infantil do Don Quixote, toda escrita em versos de cordel. E a campeã absoluta de audiência, Mafalda, em edições velhíssimas garimpadas em cafofos de reciclagem literária.

Mas a informação que transformaria meu entendimento a respeito da literatura sanitária estava por vir na prosaica manhã em que resolvi tomar café na padaria com o querido, querido Rafa.

Durante a conversa, espasmódica e frutífera como sempre, lembro que tenho um biquini na bolsa e proponho que cancelemos todos os nossos compromissos para ir à cachoeira. Ele topa na hora. Ainda não são oito da manhã e temos quase todo o tempo do mundo. Precisaríamos apenas fazer uma escala técnica em sua casa para pegar uma sunga.

Ora, ora, sabemos, você e eu, que o banheiro é o destino imediato de quem acaba de ingerir duas médias escuras e um pão com polenghinho.

Enquanto revira uns papéis encardidos que brotam de uma velha pasta verde, Rafa anuncia, Vou ter que passar um fax. Descobri que a melhor leitura pra essa hora são uns textos que uma namoradinha de antigamente escrevia pra mim. Textos de adolescente, sabe? Ela escrevia compulsivamente. Ler essas coisas no banheiro é uma viagem. Lê um pouco aí.

Não posso reproduzir aqui textos dirigidos a outra pessoa. Para dizer a pura verdade, nem tive coragem de ler.

Imagina, que diferença isso faz pra essa moça hoje, eu me digo. Ela terá passado dos trinta, ou seja, terá vivido outros relacionamentos. Trabalhará em algum canto confuso desta cidade confusa, talvez tenha filhos para criar, mensalidades de colégio e plano de saúde para pagar e nem lembrará mais das circunstâncias em que todas aquelas linhas de pura ansiedade e desejo foram derramadas. Mesmo assim, não me sinto confortável.

Mas confesso que fiquei fascinada pela idéia de ressucitar este tipo de texto bem na hora "em que o espírito paira sobre as águas" (como diz outro memorável amigo, o Tom Cabeção).

Então fui cavucar meus próprios escritos antigos para reproduzir aqui. Vou tirar umas cópias para decorar o banheiro do Rafa.

Lá vai. Dezoito anos na veia.

Se houver algo que você queira muito fazer, algo que você ache certo, ache justo e se considera capaz de realizar, faça. Se parece uma loucura e todas as pessoas que você ama tentarem te fazer mudar de idéia, ainda assim faça. Confie no seu próprio julgamento e siga-o, mesmo que as pessoas se oponham. Porque por mais que te amem, elas não usam os teus sapatos. Cada pessoa vê a vida com um olho diferente de todas as outras, e uma visão não pode em hipótese alguma ajustar-se a outro indivíduo, por maiores que sejam as afinidades.

(...)

Faça apenas isso: experimente olhar a paisagem e as pessoas à sua volta, amando tudo o que vê. Ame os garotos que tomam banho no Canal São Francisco, ame as pessoas, suas vozes, suas mãos, as palavras que dizem, o círculo perfeito de seus olhos. Ame cada estrela deste céu claro e luminoso sob* nossas cabeças, enquanto falamos de Candomblé e da história do mundo. Ame os grãos de areia e as gotas dágua do mesmo modo que os desertos e os oceanos.

Meditou bem?, pergunta o Peter, quando estou voltando das pedras para o lado do Cais Velho.

O fogo já arde com a lenha que a gente catou ontem, e o Josué me sacaneou dizendo que eu só pego graveto. Ele pediu a machadinha de alguém emprestada e ficou cortando os pedaços de um troncão enorme; exatamente como um lenhador de historinha infantil. Depois tivemos uma noite em torno do fogo e os dois tomaram um porre. Agora o fogo arde. Para o jantar: vamos ter sopa de ervilha Maggi com batatinhas cozidas.

Penso na música que o Peter cantou ontem e mais tarde tocaram no luau, uma que fala em querer bem e em imensidão da paz...

(...)

Era de madruga da quando fui para minha barraca. No fundo, uma parte de mim estava tranqüila, sabendo que ninguém ia entrar, que tudo estava bem, com o mar em seus movimentos milenares tão pertinho de mim. Fiz calmamente meu xixizinho do lado de fora e entrei pra dormir. Pouco depois, vem a voz meio pastosa do Josué: Boa noite, Meg.

* Sim, eu escrevi "sob", e não sobre. Acho que naquele tempo a posição do céu era inversa à atual ou eu tinha o costume de andar sobre as duas mãos, o que explica em parte meu posterior interesse por ashtanga yoga.

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