Dia de fazer faxina e esvaziar a caixa de papelão de uma mudança que rolou há uns seis meses

Amiga querida, aquela. Tem 53 (ou 54?) anos e, se não me falha a memória, fomos contraparentes.
Um dia me disse, Nunca soube o que é essa coisa de ter um companheiro, um amor, alguém ao lado pra fazer um carinho.
Isso foi no Frango Veloz, lendário bar da Tijuca que se tornou nosso refúgio de confidências.

Nunca foi casada com o pai do único filho, hoje com uns 20 anos. Esse é mais ou menos o tempo em que se tornaram complicados a saúde e o estado mental da mãe, uma portuguesa dura de roer e adorável ao mesmo tempo.
Ou seja, em 20 anos e com poquíssimas ajudas, deu conta de um filho e da mãe doente. E sustentou a casa com o emprego na Caixa Econômica Federal. Quando se aposentou, entrou para a faculdade de psicologia, movida tanto por compaixão quanto pelo desejo de não enlouquecer.
Em algum momento deste intervalo, ganharam uma cachorrinha poodle preta que parece ser movida a baterias alcalinas. Com a devoção de todos os cães, ela adora minha amiga como se fosse o próprio fígado (se você gosta de champanhe tanto quanto eu gosto, entenderá a ênfase da comparação).
Moram e sofrem todos juntos num apartamento bem legal na Tijuca.

Nada tem sido fácil pra ela neste recente par de anos. O câncer surgiu na mãe. Não é tão devastador para a senhora de 90 anos, mas reduziu dramaticamente as horas de sono de seus acompanhantes. Principalmente as da minha amiga, exatamente quando ela tentava terminar a sonhada faculdade.
Como a Lili do Grande Circo Místico: nunca mais romance, nunca mais cinema, nunca mais drinque num dancing. Cuidar da dor alheia e devorar livros, a rotina passou a ser essa.
E também as temporadas no Instituto do Câncer, as infindáveis noites de tosse, os fraldões sujos. A preocupação com o filho, já que a vida se tornou mais tensa para todos e o tempo para conversar escasseou. Os trabalhos de faculdade consumindo os fins de semana. Ah, falei nas pulgas da cachorrinha, nas vacinas da cachorrinha, na carência afetiva da cachorrinha? Qualquer hora de folga era usada para... adivinhe? dormir, claro.

Assisti à formatura dela na semana passada.
Foi empolgação pura. Sensação de vitória também, imagino.
Agora as coisas ficaram um pouco mais tranqüilas, pensei, olhando a coisa com as lentes individualistas de sempre. O quadro da velha mãe, apesar de difícil, está estável. Que eu saiba ela não vai emendar direto o curso num emprego. O que será que vai fazer com as horinhas que ganhou? Entrar num curso de dança de salão? Ir mais ao cinema? Curtir uma hidroginástica? Abrir um blog ou uma página no orkut?
Foi então que fiquei sabendo. O filhão dela me contou, no fim da cerimônia.
Ela arranjou outro cachorro. Um poodlezinho de dois meses.
A casa ficou mais feliz. E ela também.

Um comentário:

Anônimo disse...

Me diverti com OPAPEL. Me angustiei com a vida dessas mulheres. Ai, brincando de Poliana, outras vidas são tão menos sem problemas que a de outros. O negócio é que quando o sofrimento é seu, ele é só seu, por isso parece ser mais importante. "A dor é minha e me doeu a culpa é sua, o samba é meu."
Repaginei o blog sozinha.Dá um pulo lá. Vitória!!
bjs