Crescer como?

Uma criança maquiada, equipada com celular V3 "pink", tênis com rodinhas de patins, mochila da Barbie e IPod que reproduz à exaustão a trilha sonora de Rebelde - comovente. Uma criança negra, com síndrome de Down, cabelos desgrenhados e roupinhas velhas, brincando descalça na rua de terra em frente a sua casa, no sertão da Bahia, ai meu Deus, é muito comovente.

Conversas de crianças são comoventes. Eu poderia chorar ao entreouvir uma garota de onze anos entregando à melhor amiga seus segredinhos de play-ground.
A Bia diz, Sabe que a Gabi é V.B.L. (virgem de beijo de língua)?
A Laurinha responde, É, ela me falou, mas é porque a mãe dela nunca deixa ela sair.
A Bia vai adiante, O Vítor gostava dela, mas agora ele gosta da Julia.
A Laurinha, Eu achava beijar na boca um nojo, mas a minha irmã falou que é muito bom.

Comovente, comovente.

Aliás, tenho uma amiga de onze anos. Ela gosta de escrever livros. Bastam umas tiras de papel pautado e ela mesma vai ilustrando, colorindo e preenchendo com seus pensamentos. Depois, dois grampos simples fazem o acabamento. Uma vez prontos, estes volumes, únicos em cada linha e cada idéia, são oferecido aos seres de sua estima. Atentem para o detalhe da capa, que traz um resumo dos temas que serão tratados no interior do livro. Comovente pra cacete.

Ganhei dela o "Livro dos Sentimentos". A capa diz, Amor. Ódio. Medo.

"Medo. Você pode ter medo de morrer, de mortos ou pode roer as unhas de medo.

Amor. O Amor cabem várias pessoas: mãe, pai, sobrinha, tia, sogra, namorado.
Não perca esta oportunidade: diga EU TE AMO!

Ódio.
1 - Seu cérebro de dinossauro sai da extinção.
2 - Ande "para cima e para baixo".
3 - Deixe esse sentimento se desfazer...

Felicidade (acho que este capítulo é bônus da autora, não-previsto na capa)
Hoje Beatriz está feliz. Você também. Nós também (tudo isso em forma de acróstico).
Felicidade é nascer de novo!"

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Dor é ouvir uma história como esta (e saber o quanto ela é freqüente):

"Amigos,
meu nome é Tereza Cavalcanti, sou professora de Teologia na PUC/RJ.
Há anos ajudo uma família que vive em condições de miséria, devido à tuberculose dos pais e à falta de suporte do poder público, na educação, saúde e habitação dos 10 filhos. O filho mais velho, Marcelo Alberto Ramos Drumond, agora com 19 anos, caiu num emaranhado ligado ao tráfico, mas estava se recuperando bem, fazendo curso profissionalizante e tinha se apresentado ao serviço militar, estava aguardando ser chamado. Há uma semana (creio que foi domingo ou segunda, dia 29/01/07), foi preso junto a uma casa que havia sido roubada, em Padre Miguel, onde ele mora. Ele não participou do roubo, mas suas companhias eram suspeitas. Não sei por que, foi encaminhado para a Polinter em Neves, Niterói (?). No próprio dia 29 entrei em contato com o Pedro Strozemberg e com o Molon, para saber como arranjar um advogado, pois não tenho nenhuma experiência nesta área. Molon me indicou o Jurandir Melo, que por sua vez passou o caso a um advogado cujo nome não sei. Foi-me dito, na quarta-feira, dia 31, que teriam que esperar a "distribução do tribunal", para depois conseguir o habeas corpus, o que até hoje não foi feito. A avó do rapaz esteve lá por duas vezes e o achou muito abatido, só chorando, descalço, pedindo comida e tremendo. A família teve que arranjar roupas, sandália havaiana, remédios, lençol e toalha, etc., além de ter que deixar 2 reais para guardarem os objetos antes de entrar. As mulheres só podem entrar de calça comprida e sandália baixa, se não têm que "alugar" roupa e sapato para entrar. A quentinha que foi levada, assim como qualquer outro mantimento teve que ser dividida com outros presos.
Estou preocupada porque conheço o rapaz há anos, sei que sua saúde é fraca e ele tem sido o maior apoio da mãe, neste momento com fortes crises da tuberculose, além de problemas de tumores nos pés. ESTOU PEDINDO AJUDA A QUEM POSSA ME OFERECER E ESTOU DISPOSTA A PAGAR O NECESSÁRIO PARA viagens, alimentação, e horas de serviço, desde que haja uma solução HUMANA para o caso."

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