Viamão - “um dia de agosto em pleno verão”, segundo a Zero Hora

São cinco homens e sete mulheres reunidos em roda sobre almofadas e tapetes, na sala de meditação.
E a proposta é formar pares e cada um contar ao parceiro qual é seu sonho. Leia-se aí um propósito elevado, um ideal de vida mais harmonioso e gratificante do que a que temos agora.
O tempo é mais ou menos livre.
Compartilha-se os sonhos. Depois, todos voltam a se organizar em roda e cada parceiro conta, de forma resumida, qual é o sonho do outro.
Desde o início imaginei que algumas histórias não seriam nada leves. Mas todas brotaram com muito humor.

Uma dupla interessante: Clayton, 18 anos, estudante e morador da comunidade do Coque, no coração do Recife; Gabriel, 26 anos, gaúcho e monge budista em Bir, na Índia.

Quando criança, Gabriel tinha dois sonhos: tornar-se dentista, como a mãe, e ser o Super-homem.

Com seis anos de idade eu coloquei uma capa nos ombros e corri na direção da janela. Eu ia sair voando. Se estou aqui contando a história foi graças ao meu pai, que me segurou.

Clayton viu tanta violência e injustiça na adolescência que começou a aconchegar o sonho de ser advogado. Assim talvez conseguisse tirar os amigos da cadeia.

No Coque, existe uma entidade sem fins lucrativos, animada por ideais do espiritismo e do budismo. Clayton freqüentou vários cursos ali, sempre à tarde. Os professores são gente interessada em arte, teatro, literatura, espiritualidade, intelectuais de todo tipo, que se dispunham a atravessar a fronteira simbólica do gueto para repartir conhecimento.

Por três vezes, o lugar, que os moradores chamavam de escolinha, foi assaltado.

Eu lembro da primeira vez que isso aconteceu. Eu era novinho. Pensei assim, E agora? O que eu vou ficar fazendo a tarde toda? Porque eu tinha escola de manhã e fazia curso lá à tarde. Depois do assalto achei que a escolinha ia acabar. Mas não acabou, não. Os professores falaram que não iam desistir. Em vez de ser naquela casa, as aulas passaram a ser em casas emprestadas pelos moradores. Depois conseguiram comprar tudo de volta.

Foram vizinhos do próprio bairro que roubaram os equipamentos da escolinha. Todo mundo sabia. Aliás, não foi difícil descobrir. Logo depois dos assaltos, eles procuravam os fundadores da entidade e ofereciam serviços de segurança. Que eram prontamente recusados.

Também apareciam uns vizinhos revoltados com aquilo e que queriam resolver. Falavam assim, Se vocês quiserem, a gente resolve. Um colega aqui tem arma, a gente junta um grupo, vai lá e pega de volta todas as coisas roubadas.

A resposta foi a mesma que os ladrões levaram para casa. Não, obrigado.

Ainda sem muitas certezas sobre que profissão seguir, Gabriel enfrentou uma hepatite séria que o fez perder o vestibular.
A idéia de ser monge foi ficando cada vez mais nítida em sua cabeça.
Antes teve que arquivar todos os comentários do tipo Mas você não vai mais poder namorar que foi obrigado a ouvir.
Sou taurino e tomei uma decisão, me disse ele em outra conversa. Ninguém ia me fazer desistir.
Desde 2003, ele mora em mosteiros com outras centenas de monges, a maioria crianças que descendem de tibetanos. Usa invariavelmente os cabelos raspados e roupas cor de vinho e vive mergulhado nos estudos de filosofia e língua tibetana.

Já o menino estudioso do Coque intuiu que educar as pessoas é tão difícil e importante quanto tirá-las da cadeia.
Ele acaba de passar no vestibular para a Federal de Pernambuco. Uma façanha e tanto.

Acho que cada um encontrou sua própria maneira de ser o Super-homem.

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