Três mulheres profundamente religiosas compartilham visões de mundo na mesa do Cafeína, em Copacabana.
A CATÓLICA - Descobri que lá no Flamengo tem um padre que faz uma homilia maravilhosa.
A FILHA-DE-SANTO - O que é homilia mesmo? Faz tempo que eu não escuto essa palavra.
A CATÓLICA - É aquela parte da missa em que o padre conversa com os fiéis. Aliás é por causa dessa parte que muita gente larga a igreja, porque às vezes os padres falam coisas absurdas, preconceituosas. Esse não, ele é ótimo.
A BUDISTA - É, até onde eu sei não existe na doutrina um capítulo oficial sobre pessoas que devessem ser excluídas, condenadas ou segregadas. Acho que isso foi inventado depois.
A CATÓLICA - É por isso que eu falo: o problema não é a igreja, são os padres.
O encontro dura mais que o previsto por duas razões: a chuva apertou e os garçons estão confusos com tanta gente, sons e pedidos.
A BUDISTA - Essa questão dos "trabalhos"... de alguém que fez um "trabalho" e prejudicou o outro... muita gente tem medo ou repulsa pelo candomblé por causa disso.
A FILHA-DE-SANTO - Essa gente não entende que tudo isso volta. Se você faz um "trabalho" para o mal, isso vai voltar pra você. Eu recebi esses ensinamentos do meu pai-de-santo há muito tempo, ele é maravilhoso e sempre deixou isso claro pra mim.
A BUDISTA - Mas você poderia fazer um "trabalho" que afetaria a vida de outra pessoa?
A FILHA-DE-SANTO - Com o meu ex, por exemplo. A relação estava péssima, nós íamos nos separar. Eu fiz um trabalho para me desvincular dele. Eu estava muito presa a ele e fiz isso, mas nunca desejando mal a ele. Desejei tudo de bom, que ele fosse feliz, mas que eu não me prendesse mais.
A BUDISTA - Então na verdade o "trabalho" era pra você, não pra ele.
A FILHA-DE-SANTO - Isso.
Entre a polêmica e o silêncio, elas escolhem a segunda opção. E nem precisam pensar muito a respeito – a decisão brota do próprio respeito que tornou a conversa possível.
A BUDISTA - Não sei bem qual seria uma explicação budista pra isso. Alguém realizar um ato mágico, com a intervenção de outros seres e esse ato mágico resultar em prejuízo pra alguém... acho que isso se explicaria por um elo cármico muito forte entre todos esses seres envolvidos.
A FILHA-DE-SANTO - Então o budismo aceita que isso pode acontecer?
A BUDISTA - Acho que sim. Em algumas cerimônias já ouvi preces tibetanas que pedem que "o mal proveniente de outros seres possa ser evitado", algo assim.
A FILHA-DE-SANTO, com um olhar de quem está muito interessada - Dá pra você me ensinar essas preces?
A salada com shitake, os sucos e o expresso chegam e partem, apesar da incerteza dos garçons. Os celulares tocam, outros encontros estão à espera. Ficam os sorrisos, abraços e promessas. E a lembrança do encontro de três tradições importantes, surgidas em contextos tão diferentes, numa calçada chuvosa de Copacabana.
No jardim silencioso do MAM, leio alto este trecho do Identidade, de Zygmunt Bauman.
Acabamos com um paradoxo. Começamos guiados por uma esperança de solução - apenas para encontrarmos novos problemas. Buscamos o amor para encontrarmos auxílio, confiança, segurança, mas os labores do amor, infinitamente longos, talvez intermináveis, geram os seus próprios confrontos, as suas próprias incertezas e inseguranças. No amor, não há ajustes imediatos, soluções eternas, garantia de satisfação plena e vitalícia, ou de devolução do dinheiro no caso de a plena satisfação não ser instantânea e genuína. Todos os recursos pagos para evitar os riscos com que a nossa sociedade de consumo nos acostumou estão ausentes no amor. Mas, seduzidos pelas promessas dos comerciantes, perdemos as habilidades necessárias para enfrentar e vencer os riscos por nós mesmos. E assim tendemos a reduzir os relacionamentos amorosos ao modo "consumista", o único com que nos sentimos seguros e à vontade.
O "modo consumista" requer que a satisfação precise ser, deva ser, seja de qualquer forma instantânea, enquanto o valor exclusivo, a única "utilidade", dos objetos é a sua capacidade de proporcionar satisfação. Uma vez interrompida a satisfação (em função do desgaste dos objetos, de sua familiaridade excessiva e cada vez mais monótona ou porque substitutos menos familiares, não-testados, e assim mais estimulantes, estejam disponíveis), não há motivo para entulhar a casa com esses objetos inúteis.
Que porrada, pois não?
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário