Chego atrasada ao ritual da fogueira. Fabiano já tinha começado a cantar as canções dos kashinawás.
O fogo tem dança própria. Morre e revive muitas vezes, faz nascer luz em nossos rostos. Ao capricho das labaredas vou descobrindo as fisionomias dos amigos e amigas que vieram ao círculo celebrar a lua cheia.
Percebo que não conheço ninguém, quer dizer, nunca fomos formalmente apresentados. Mas todos me recebem com sorrisos. A moça branquinha, de tranças compridas, une as mãos em prece diante do peito quando me sento ao seu lado. Quando lembro que na Índia este cumprimento distingue os mestres e os grandes buscadores (o que é a mesma coisa), sinto-me envaidecida e envergonhada por um minuto. Depois, relaxada. É tão bom existir sem um rótulo colado na sua testa.
Os círculos não são apenas esteiras de palha dispostas ao redor de um punhado de lenha ardente, como temos aqui. Os círculos são nossas relações – conosco, com os seres de todas as formas e tamanhos que bebem da vida ao mesmo tempo que nós, com o ambiente que nos cerca. Relações dançarinas e imprevisíveis como o próprio fogo.
Fabiano pára por algum tempo e fica quieto, fumando seu cachimbo nativo. Silvia Rocha, que conduz as fogueiras junto com ele, canta A Canção da Mulher Forte, que aprendeu entre os xamãs do Canadá.
É quase irreal homenagear a lua cheia com uma fogueira num microquintal, nos fundos de um hospital com dois blocos de quartinhos e centenas de janelas. Olho para cima. O céu surge em forma de pentágono, por causa da moldura formada pelos tetos dos edifícios.
As canções são simples e comoventes, de tão belas.
Entre um canto e outro, Fabiano diz, Que esse ritual da fogueira traga benefícios para todos nós, ajude cada um a se encontrar. A força da floresta é muito importante. Na nossa tradição falamos do caminho vermelho, o caminho que reúne o corpo e a espiritualidade. Falamos também na jibóia, que para nós é um animal de muita força. É com a jibóia que a mulher aprende sua arte, que é tecer redes, tecer a rede da vida.
Dançamos em círculo várias vezes, como se fosse a coisa mais natural do mundo. E de repente o quintalzinho parece ter crescido. À luz das últimas brasas, nós nos nos abraçamos e cantamos gratidão para as quatro direções, para o céu e para a terra.
Com uma calça ginástica toda desbotada, calçados de plástico cor-de-rosa, convenientemente chamados pelo povão de sandalinhas-tô-na-merda, e mais a companhia da querida, elegante e impecável Marcia, aterrisso numa rua opulenta do Leblon.
Muitos carros grandes, muitos óculos escuros, e é divertido ver tantos deuses e deusas do Olimpo disputando vagas nos restaurantes.
Estacionamos, saímos do carro. Esperamos o sinal fechar.
Escuto um ei! ei! vindo de um dos carros.
Uma moça ao volante, sorriso simpático. Duas pré-adolescentes no banco de trás,os olhos fixos em mim como se eu fosse um totem.
Desculpa, diz a mãe. Você pode me falar onde comprou sua sandália? É que as meninas estão te olhando e não páram de me perguntar. Querem que eu compre uma igual pra elas.
Tenho vontade de rir e respondo, Ela custa quinze reais nas lojas de calçados mais populares. Mas tem que ser uma loja baratinha. Nesse bairro não sei se tem.
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