Segundona.
Dedico este dia e o alívio deste primeiro gole de café a todas as pessoas que acordaram devagar, sentiram-se deprimidas, quiseram continuar dormindo e sobrevivendo no calor uterino dos lençóis. Pensaram na solidão atroz que nos persegue por mais que cultivemos amigos e façamos filhos. Pensaram na vã quantidade de coisas que somos obrigados a fazer, nas escolhas que um dia ingenuamente fizemos e que nos aprisionaram com crueldade assim que se viram maduras o bastante para nos dominar. Pensaram em tudo isso, respiraram fundo e levantaram mesmo assim. Esvaziaram as bexigas, foram até o espelho. Se são mulheres, sentiram uma onda de ódio contra o cabelo que nunca fica decente, por mais que a gente trate com creminho e xampuzinho. Se são homens, sei lá. Olharam desanimados para o pinto e pensaram, Só serve mesmo pra fazer xixi, porque comer alguém que é bom eu não consigo há um tempão. Não queriam comer o indigesto ca-fel da manhã, mas comeram. Não queriam dar bom dia ao porteiro, mas deram. Não queriam pegar a condução, mas pegaram.
E valeu a pena: algumas horas depois o dramático fantasma da segunda-feira foi embora e nos deixou viver em paz.
Lembro da época em que eu namorava um cara que saía bem cedinho pra trabalhar.
Era uma segunda chuvosa e eu saí da casa dele emburrada, imaginando como é possível que uma linda noite de carícias e partilhas terminasse num asfalto frio e no ar pesado de fumaça e buzinas.
Desci a rua, profundamente mal-humorada.
Quem tocasse em mim se queimaria.
Passei pelo hospital e pela padaria. Faltava pouco para a troca de plantão e um batalhão de seres em jalecos brancos mordiscava seus pães na chapa. Muitos tinham cara de mal-dormidos.
Passei pela banca de jornais. Trabalhadores checavam as primeiras páginas: alegrias e sofrimento no futebol; tiros e facadas na delegacia; tapas e beijos na telenovela; garotas de biquini aqui e ali, sonhando ser Marilyn Monroe, talvez sem saber que Marilyn Monroe era uma identidade postiça e que a frágil criatura que a ostentava tinha o prosaico nome de Norma Jean e morreu sozinha em sua mansão, antes de completar quarenta anos. Eram sonhos o que os trabalhadores checavam nas primeiras páginas.
Passei pela fila de perícias do INSS e vi umas oitenta pessoas, cada uma com sua guia ou seu protocolo na mão, comportados, conversando e fazendo piadas, porque esperar numa fila sem fazer piadas é demais. Passei pelo ponto de ônibus e a multidão que esperava se confundia com a multidão que desembarcava, a cada vez que um coletivo parava. Chegava a garota sorridente que nos servia waffle no café. Chegava o cara tímido da farmácia. Chegava o anotador da banca de bicho, com disposição pra mais um dia falando sem parar da vida alheia. Chegava o segurança da galeria, grande o bastante pra parecer ameaçador, mas cordial o bastante pra despertar empatia.
Juro que de todo esse povo eu era a única com cara de amargurada.
E foi a vitalidade deles que me fez viver o resto do dia.
Às vezes eu me sinto uma vampira.
Na saída do elevador, encontro outra sobrevivente do "reveilão" de Martins de Sá.
Acho que um ser convencional, acostumado a sonhar com férias em Paris, teria dificuldades para entender o espírito da conversa.
ELA - E aí, como foi?
EU, com uma gargalhada - Foi ótimo! O maior roubadão. Muita chuva. Fiquei irritada de ter que cozinhar na chuva e acabei comendo pão de hambúrguer e atum em lata por quase uma semana.
ELA - É, foi roubada mesmo. Passei mal no barco, fui acampar e a barraca quebrou. Acordei no meio da noite com chuva na cara!
EU - E a lama nas trilhas?
ELA - Nem fala! Você foi à cachoeira? Tentei chegar lá e não consegui. Eu pisava na trilha, minha perna afundava até a canela.
EU - Nem tentei chegar nessa tal cachoeira. Fui a Sumaca e tinha uns oitenta cachorros e duzentas pessoas numa prainha desse tamaninho!
ELA - Mas foi muito legal, né?
EU - Ah, a gente adorou.
ELA - Foi muito bom! Lá é lindo.
No almoço, encontro uma amiga escritora. Talentosíssima. Escreve coisas deliciosas sobre o Rio de Janeiro para uma revista semanal.
Está na entressafra criativa e tem batalhado uns trabalhos em TV e internet, mas está difícil. Ela acha que é porque já está percorrendo os "enta".
Comento que o que eu acho mais fantástico é que ela escreve sobre tudo e qualquer coisa.
Eu tiro leite de pedra, admite, com um sorriso. Outro dia estava no metrô e caiu uma gota no meu nariz. Fiquei intrigada. Uma goteira, dentro do metrô? Como é que pode?Fui apurar e percebi que era o ar condicionado. Já sei. Vou escrever sobre isso. Uma goteira dentro do metrô. Pingou no meu nariz e quase fez uma estalactite.
Concordamos que é uma boa deixa pra falar bem do metrô. Afinal, a paisagem carioca leva toda a fama, mas é dentro do feio tubo metálico hiperventilado que a gente tem a sensação boa de que alguma coisa realmente anda nessa cidade caótica.
Seus olhos estão sérios quando ela fala da vida.
Isso é uma palavra de mim pra tu. Nunca pare de trabalhar. Não pare de trabalhar enquanto você se sentir uma pessoa inteligente, criativa, capaz de pensar nas situações a seu redor e a concluir que elas podem ser mudadas e que você pode dar uma contribuição para mudá-las.
Respondo que, salvo intervenções violentas em minha rotina, pretendo trabalhar até a véspera da minha morte.
No dia D, concordo em deitar numa esteira no jardim, descansar a cabeça num almofadão e assim dar uma última olhada em tudo que Deus e nós, seus coadjuvantes, fizemos.
"Olhar com ternura a criação e ver-se pago de tudo".
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Um comentário:
Se a morte pudesse sempre ser pacífica e controlável assim...
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