Existe uma coisa chamada ressaca de viagem boa. Ou ressaca de lugar bom.
Você volta e se sente atacado por uma invencível nostalgia. No meu caso a nostalgia de Martins apagou até a lembrança daqueles mosquitos cruéis.
Ninguém pensa nisso quando planeja a viagem. Ainda bem.
Imagine olhar para a imagem da ultrassonografia do bebê que está na sua barriga e pensar: O que vou dizer no dia em que souber que o safado levou bomba em matemática?
Hoje o sol voltou a brilhar no Rio de Janeiro e fui tomar um café com o Rafa, de manhã cedo.
EU - Essa insatisfação não vai passar se a gente se mudar pra uma cidade menor. Essa insatisfação é nossa, é o nosso software, não está no lugar X ou no lugar Y. Vamos continuar a nos sentir desperdiçados.
ELE - Acabaram as fantasias. Resta a poesia das situações.
E uma fantástica "produção de passado", como diz Elisa Lucinda.
Chapada Diamantina, junho de 2006.
Minha vizinha de casa é a Martina, suíça de 37 anos, bonita, ruiva, com um bom-humor que domina o ambiente uns quinze minutos antes dela chegar.
No Vale do Capão, ela faz massagens nos turistas e dá aulas de alemão.
Pisando e repisando a estrada de terra entre a comunidade Lothlorien e a vila, tivemos a chance de nos conhecer um pouquinho.
Martina é uma assistente social que estudou também teologia. Ela veio ao Brasil para montar abrigos para idosos de rua em Recife.
A situação destes idosos é muito vulnerável, porque eles freqüentemente se vêem desprovidos de tudo. De uma hora para outra, crianças ou mendigos mais jovens podem roubar o dinheiro velho, o lençol velho, o sapato velho ou a comida que eles arduamente vão recolhendo ao longo de dias.
Martina disse, Entre as pessoas que recebemos há empregadas domésticas que trabalharam e moraram com seus patrões a vida inteira; ou pais e mães que por alguma razão se desentenderam com os filhos, ou velhinhos solitários que se viram incapazes de pagar o aluguel de um barraco – de repente, rua.
Nos abrigos, tenta-se refazer vínculos e acertar destinos. Parte do trabalho é feito por voluntários, outra parte por trabalhadores remunerados.
Pouca gente quer fazer de graça certas coisas, como dar banho e limpar cocô, explicou ela, mas sem ironia, nem julgamento. Alguns voluntários até começaram, mas a realidade dos velhos é dura e exige um trabalho constante e regular.
Chegou a véspera de ir embora e conhecemos um outro lado de Martina.
Empresária e decoradora de ambientes.
Ela ajudou o namorado baiano a montar uma transada lojinha de licores caseiros, com mesinhas de madeira e luminárias de palha. Licoteria do Palito, um cara simpático que um dia foi magro o bastante pra merecer o apelido (não que esteja gordo, até onde acompanhei estava tudo OK ali, com todo respeito).
Com muita paciência, ele explicou todos os detalhes do processo de destilação de licores.
É claro que aproveitei a chance pra degustar.
Saí de lá uivando pra lua.
Conversa com o amigo com quem fui à Índia e ao Nepal, em setembro. Primeira vez dele, segunda minha.
Em um mês de viagem, ele viveu o choque da Ásia com todas as suas conseqüências.
Agora anda às voltas com intermináveis arrumações. Cada vez mais leve.
Descobri que eu tinha 20 pares de sapatos. Fiquei com dez. Peças de roupa, eu tinha umas 70. Vou ficar com quatro calças e dez camisas. Resolvi cancelar minha assinatura da Folha de São Paulo. Leio jornal todo dia há 18 anos, desde que era adolescente, e comecei a achar que isso estava me deixando um pouco deprê. A moça do atendimento não acreditou e tentou me impedir com vários argumentos. Eu disse, Minha filha, você não está me entendendo, eu agora quero ser uma pessoa desinformada!
Adoro relatos pós-Índia.
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