O desenho de um avião de guerra surge na tela do noticiário da manhã e eu não posso fazer nada além de respirar fundo.
Existe um tipo de dor quando ouvimos falar sobre o sofrimento evitável. Essa dor é um sintoma quase físico da perda da dignidade.
O avião americano bombardeou o sul da Somália e deixou “muitos mortos”...
A potência militar faz em seguida um balanço do ataque e o considera (voz de locutor de telejornal) positivo-pois-pode-ter-atingido-membros-de-uma-célula-importante-da-organização-terrorista-que-bombardeou-embaixadas-americanas-em-1998.
Tudo isso acontece num país devastado por guerras, retalhado em clãs hostis entre si, palco de disputas entre vizinhos que parecem nunca estar saciados de sangue e território dos sonhos para o comércio mundial de armas.
O cotidiano deste país, ninguém sabe. Ele emerge da nossa zona de indiferença a cada vez que é bombardeado e pouco depois torna a sumir. Não muitos de nós sabem que por trás deste aparente ajuste de contas (questionável por si só) estão a miséria e as sucessivas ondas de refugiados.
Pois bem, eu gostaria de saber os nomes completos de todas as pessoas que tombaram neste bombardeio.
Nome, etnia e religião de cada uma delas. No caso dos supostos terroristas, quero que escrevam os crimes dos quais eles são acusados.
Quero saber as idades de todos eles, terroristas ou não.
No caso dos homens, que acrescentem os nomes dos filhos deles e das mães desses filhos e de informações sobre onde essas mães e esses filhos, se sobreviventes, estão agora.
Caso não saibam, escrevam embaixo: paradeiro desconhecido.
E quero que façam o mesmo com os nomes dos mortos e refugiados dos conflitos em Darfur, Sudão.
E da guerra de quase duas décadas no norte de Uganda.
E dos que tiveram que abandonar a Costa do Marfim nos últimos quatro anos.
Não me basta saber o nome da menina africana que a estrela de Hollywood adotou.
Mas são milhões, Maria. Como vai ser possível apurar os nomes de milhões de pessoas?
Eu não sei. Mas eu pergunto, alguém já tentou?
É bem possível que neste exato momento alguém, ou muitas pessoas destemidas estejam fazendo um tremendo esforço para ajudá-los e para isso precisam obter seus nomes.
Não acredito que eles vacinem um bebê refugiado anotando assim, Número 87551, Imunizado contra cólera. Não acredito.
Esses nomes já devem estar registrados em algum lugar.
Por que não?
Os nomes dos mortos na queda das Torres Gêmeas são lidos em cerimônia televisionada para o mundo inteiro a cada “aniversário” (parabéns pra quem?) da tragédia. Tenho a nítida sensação de que, se eu quiser saber todos eles, todinhos, um por um, alguns cliques no google resolveriam meu problema.
Não digo que a megalista teria que ser atualizada em tempo real. Mas se eu quisesse alguns nomes de 2005, seria possível?
E os de 2003?
E se não for factível obter informações sobre a vida de cada um (afinal, eles se movem em grupos muito grandes, morrem em grupos muito grandes e cadáveres em valas comuns não falam, e gente que está apavorada fala menos ainda, e se falasse talvez ninguém entendesse porque são idiomas pouco estudados, quantos cursos de “sudanês” existem no seu bairro?) então pelo menos os nomes dos que puderam ser identificados.
Digo isso porque a tragédia deles interessa a todos nós. A forma como viveram e morreram, as origens, em que eles acreditavam e por que razões foram mortos ou desalojados ou estupradas, tudo isso tem que interessar, e muito, a todos nós. Estou errada?
Caso contrário, como poderemos desenvolver os meios de salvá-los?
E como poderemos abortar novas tragédias? E como poderemos amparar os órfãos?
E tem mais.
Eu queria saber os nomes para poder rezar por eles.
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